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quinta-feira, 13 de junho de 2013

Entre frutos e sombras


Uma mordida e eu sabia que meu coração iria parar. Somente um segundo e um último sabor. Em seu rosto refletida a cor, a maligna cor que emanava daquelas paredes.

Tons e tons de verde, e minha respiração se elevava quase querendo se extinguir. A ânsia de acabar com tudo era tamanha que meu coração quase que parara por conta própria. 

Lembranças amargas me faziam desejar cada vez mais aquele veneno e o brilho do rosto à minha frente, de ansiedade, de suor, de medo talvez, apreensivo. Sujo de fuligem e com expressão cansada.

Ao contrário do meu, lustroso, branco e corado, sem uma ruga sequer. Porém com um brilho fosco nos olhos, de desesperança... A velha devia ser mais viva por dentro do que eu.

- Apresse-se criança! - berrou com seu hálito podre. Eu não pude me mover de tamanha dor que me tomava, parecia que o veneno iria aliviar meu pesar. Ela deu meia volta e deixou-me trancada a pensar, com a solução em uma singela mordida.

Teria meu medo me feito refém de uma vida repleta de falhas, de vazios inexplicáveis? A dor de não ter pelo que sentir era maior do que tudo.

Com a luz da lua a tocar minhas mãos fechei os olhos na esperança de que me viesse alguma ideia. Mas só enxergava o negro dentro de minha alma que a cada dia me consumia.

Ele era a droga da alegria encarnada... e eu viciei. Ah! Como viciei! E aquilo me destruiu por dentro até não haver mais um pingo de luz em meu ser que pudesse me reerguer.

E eu assisti minha própria destruição, minha anulação diante de um sorriso esplêndido que me cativava a cada mover de músculo para se abrir mais e mais e soltar uma gargalhada suave:

- Minha querida!

Mentiras nos cercaram por todos os lados e minha personalidade foi moldando-se aos seus atos. Fui me degenerando a cada sorriso seu, a cada toque em minhas mãos...

Mãos que agora brotavam espinhos, que sangravam e tremiam. Meu rosto se desfazia e derretia num calor agonizante. Minha pele como cera escorria e os músculos continuavam pulsando descobertos e...

- Arrghh!

A vela me queimava e eu havia adormecido, minhas mãos vermelhas e quentes com formações de bolhas e o fruto caído ao meu lado. Os lábios se encontravam dormentes e mal conseguia produzir algum ruído. 

A velha sentou-se em frente a mim fitando-me e sem uma palavra sequer me deixava perturbada. E eu puxava o ar mas meus pulmões pareciam paralisados, me arrastei até a fruta e encontrei-a intacta... meus olhos arregalavam-se e minhas unhas cravavam no chão de pedra deixando um rastro de sangue.

- Ah criança!

Eu me debatia e minhas veias já estavam saltadas, não tirava os olhos dos olhos da velha que tinha um sorriso engraçado no rosto. Apertei meu pescoço, tentei pedir ajuda com o olhar e ela nem uma palavra dizia com seu sorriso estático.

Fui desistindo a cada tilintar que ouvia em minha mente e a cada escuridão que me passava diante dos olhos. O fruto foi apanhado pela velha que girava-o como que inspecionando. Fechou a cara encarando-me com a respiração escassa.

Eu encarava o fruto intacto e ela por fim disse:

- Este seria seu pior mal - girando a maçã vermelha lustrosa com uma camada esverdeada. - Criança, você está se afogando em sua própria escuridão, na aura negra que consome sua alma. É tarde para tentar lutar é tarde para acordar... O fruto apenas lhe daria uma morte mais branda.

Me revirei para ouvi-la melhor, ainda caída no chão.

- Não, não vai morrer, não se preocupe. apenas ficará presa no seu próprio corpo, como um boneco que não serve mais para brinquedo. Não lutou um pouco sequer contra seu desejo e se jogou no mal que a encantava. Seus pensamentos continuarão em sua cabeça mais ávidos e mais detalhados, viverá eternamente suas lembranças mais ruins e perturbadoras. Agora já não mais se move mas deixarei a maçã ao seu lado...

-... para que se lembre que até mesmo o veneno pode se tornar doce perto do que guarda dentro de si.



quarta-feira, 2 de maio de 2012

Vermelho como camarão

(...)
Andava com mania de suicídio e com crises de depressão aguda; não suportava ajuntamentos perto de mim e, acima de tudo, não tolerava entrar em fila comprida pra esperar seja lá o que fosse. E é nisso que toda a sociedade está se transformando: em longas filas à espera de alguma coisa. Tentei me matar com gás e não consegui. Mas tinha outro problema. Levantar da cama. Sempre tive ódio disso. Vivia afirmando: "as duas maiores invenções da humanidade foram a cama e a bomba atômica; não saindo da primeira, a gente se salva, e, soltando a segunda, se acaba com tudo". Acharam que estava louco. Brincadeira de criança, é só disso que essa gente entende: brincadeira de criança - passam da placenta pro túmulo sem nem se abalar com este horror que é a vida.

Sim, eu odiava ter que me levantar da cama de manhã. Significava que a vida ia recomeçar e depois que se passa a noite inteira dormindo cria-se uma espécie de intimidade especial que fica muito mais dificíl de abrir mão. Sempre fui solitário. Você vai me desculpar, creio que não regulo bem da cabeça, mas a verdade é que, se não fosse por uma que outra trepadinha legal, não me faria a mínima diferença se todas as pessoas do mundo morressem. É, eu sei que isso não é uma atitude simpática. Mas ficaria todo refestelado aqui dentro do meu caracol. Afinal de contas, foram essas pessoas que me tornaram infeliz.
(...)

Charles Bukowski

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Defenestrei-me



Quando acordei e vi que não mais vivia, apenas extendia minha existência. A cada segundo, a cada respirar. Olhei o espaço vazio na cama ainda com o formato de meu corpo. Por quanto tempo ficaria ali?

A chuva batia violentamente em minha enorme janela no décimo segundo andar de um prédio que tinha em frente à um belo parque. O meu apartamento era o último e o terraço me pertencia nas tardes quentes. Onde ficava de roupa de banho na companhia de meu querido amigo.

Tudo era amarelo e passou a ser cinza da noite para o dia. Tudo perdia-se em seu mais puro sentido. Nem palavras mais me vinham à boca, só me encolhia por causa dos trovões.

Acordei de um coma profundo de confusões e águas negras. Minha mente estava nebulosa e não me permitia pensar a não ser em coisas que já não existiam para mim.

Andei pelo apartamento chorando desesperada, meus ruídos abafavam o caos e o barulho da chuva violenta lá fora. Meu espírito se enchia de mágoas novamente, a cada dia tudo passava e se curava. E a noite tudo retornava em sua pior forma... Com o pior demônio como imagem. E eu o via ensolarado, como o mal nos aparece.

Deitei na cama ainda quente e me encolhi com meu milhares de papéis escritos, frases inacabadas, pensamentos interrompidos e lenços de papel. Uma carta rasgada ao chão, que estava alí há meses e não ousei recolhê-la. Quase que pus uma redoma para envolvê-la.

Me acalmava... vinham imagens lindas em minha cabeça. Assim ficava bem e dormia. Dormia e tinha sonhos ruins.

Acordava como sempre no desespero, já no meio da tarde, comendo meio pão, bebendo meio copo e corria de uma lado para o outro por nada. Sem um emprego, sem compromissos, somente enclausurada no décimo segundo andar. E essa vida não me cabia mais. Não era vida... era prolongar a existência. Na qual já não via sentido.

Me lavei, me penteei, me poli da forma mais bonita e fui olhar pela janela o crepúsculo deixava tudo amarelo, como era antes. Abri a janela e o vento era forte, levando meus cabelos longos para dançar com o vento. Meus óculos refletiam em seu vidro toda a paisagem amarelada.

Encantada com tudo aquilo. Me apoiei no pára-peito e senti a brisa mais fresca. Meus pensamentos clareavam e toda a névoa havia partido. Tudo era como nos dias quentes do terraço, com guarda-chuvinha no copo e tudo mais.

Uma figura me apareceu no céu, flutuando segurando balões coloridos. Meu amigo, ele tinha voltado e me estendia as mãos. Sorri incandescente e meus cabelos quase que me puxavam para fora, meus joelhos já se apoiavam no pára-peito e pessoas se aglomeravam no parque, olhando em minha direção.

Eu nada via, somente os balões reluzentes no amarelo do céu. As mãos queridas me chamando e meus olhos brilhando por trás dos óculos. Tudo se calou e o silêncio se fez música em minha alma. Estendi-lhe as mãos, me pus em pé e dei um passo adiante.

Tudo se tornou como numa foto Polaroid, amarelo-ouro e um tantinho de verde, num gradiente de emoções que faziam minha mente flutuar. Ele me chamou num gesto com um falar meio mudo: "Vem...", como diz à uma criança.

Esvaziei meus pensamentos, abri os braços, as pessoas gritavam. Sussurei um "eu vou"... mordi os lábios e apertei os olhos. Assim, defenestrei-me.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Um conto de fim de ano

Sentada estava no banco da praça central. No meio da tarde, esfriava um pouco. E eu estava mergulhada em meus pensamentos. Dentro de minha cabeça parecia que caía um temporal e meus olhos refletiam bem isso.

Um rapaz alto brincava com seu cachorro e eu os olhava, com um pouco de inveja daquela felicidade toda. Entre eles parecia haver uma ligação que eu jamais teria nem com alguém. Não era muito fã de animais, nem de pessoas. Nem de nada.

A vida me deixou um vazio após a morte de um gato que acabei me apegando. Foi no fim do ano que o adotei, mas passei um Natal triste, pois ele ainda não tinha se adaptado à minha casa e fugiu, voltou no Ano Novo somente. Mas foi somente no mês de Maio que criei certo vínculo com o bichano.

Abri minha bolsa e fui procurando uma blusa, havia esquecido. Putz, nunca saía de casa sem uma blusa. Os dois correndo me faziam sentir uma sensação de calor. Até que o frisbee veio em minha direção e bateu no banco, bem do meu lado.

Me encolhi duas vezes, pelo ataque do objeto voador e pelo grande cachorro que vinha babando em minha direção. Morria de medo de cães. E de que o rapaz viesse me dirigir à palavra. Ah e veio.

"Ele não morde!", disse correndo em minha direção e sentando-se ao meu lado, balançando a cabeça para tirar o cabelo do rosto. Tinha uma voz interessante.

"Ele poderia me comer, isso sim!", disse apavorada. Ele somente riu e ficou conversando como cachorro monstruoso. Ele tinha um olhar dócil, mas me amedrontava de alguma forma, lá no fundo do meu ser eu sentia um pavor.

"Passa a mão nele.", fui com a mão trêmula, porém não conseguia, o rapaz riu novamente, risonho e com aquele cabelo que não parava no lugar. Ventava um pouco e ele também começou a sentir frio. Jogou longe o frisbee e o cão foi atrás. Me senti mais aliviada.

O cão era de cor marrom, não entendo de raças de cães. Era grande, parecia ser daqueles que os cegos usam. Isso, eles deveriam ser somente para cegos, só um instrumento... Cães são estranhos.

Bem, ficou aquele silêncio constrangedor, até o cara me perguntar se eu estava com frio. Nem precisava responder, meus pêlos estavam eriçados e eu me encolhia, visivelmente estava com frio.

"Ah eu devo ter uma blusa no carro, vou buscar pra você, cuida do meu cachorro? Ele não foge, é acostumado a ficar por aqui".

"O-ok", respondi com frio e medo. Pensei em sair e deixá-lo ali. Mas não sei, aquele cachorro me causava uma coisa bem intrigante. O medo de perder o medo. Às vezes eu desejava não me apegar a nenhum ser com medo de acabar perdendo um dia.

Como o gato, não gostava tanto assim dele, mas quando ele se foi me causou um vazio extremo, não conseguia mais fazer as coisas mais simples da minha vida. Não chorei, mas fiquei muito triste. A ponto de não sair por meses. De desviar de gatos, de detestá-los.

Fiquei olhando para a cena do cão brincando com outras pessoas. O dono volta e me trás a blusa. "Ah! Mas...", não sabia o que dizer, eu não pedi, sei lá... Nem pensei que era para mim.

"Eu não posso, me desculpe, já me vou.", ainda o ouvi gritar: "Vai morrer de friiio!".

Olhei para trás e o "cãozinho" pulava e o lambia todo. Uma cena nojenta e agradável. Mais uma vez fugi de cães e pessoas. No fundo me sentia com vontade de revê-los.

***

Outro dia estava em casa. A janela embaçada pela quentura do forno. Estava assando um pão, lembrei de Kennedy, quando levou uma bala na cabeça. Assim morreu. Eu senti muito. Ah, Kennedy era meu gato.

Ele dividia as noites frias comigo, sentado em meu colo. Um dia foi atropelado por um policial, agonizava, autorizei a execução. Me despedi com um aceno apenas: "Adeus Kennedy".

Dormi muito mal essa semana, tendo sonhos estranhos e os dois estranhos não me saíam do pensamento, uma inveja tremenda tomou conta de mim. Sem quase o que comer em casa, depressiva pela TPM, fui a um Café.

Pedi um pedaço de torta e me sentei sozinha numa mesa que dava de frente para a rua. O movimento me causava certa tranqüilidade, eu conseguia ver calma no caos e caos na calma. Um dom que não servia para nada.

Olhando as faixas de pedestre e as pessoas atravessando de mãos dadas aos mais novos. Idosos, jovens, executivos e todo o tipo de gente. Eu não me sentia só, me sentia comigo mesma e vazia.

Vi uma face conhecida atravessar a rua, de capuz, correndo na tentativa de pegar o sinal aberto. Empurrou a porta e o sininho tocou. "Me vê aquele capuccino!". Olhou para mim: "Olá moça que gosta de sentir frio!".

Apenas sorri um sorriso tímido e sem gosto. Daqueles que você não espera serem sorridos, que na verdade é uma forma de dar tchau, de desviar, de encerrar uma possível conversa.

Pegou o capuccino e sentou-se à mesa comigo. Olhou pela janela e seu semblante de rapaz de bem com a vida e contente foi sumindo aos poucos. "Há coisas que só encontramos nas pessoas sabia?". E continuou a olhar... Olhava para uma loja de livros: "Ela trabalhava ali".

"Sua mãe?" respondi inocentemente.
"Não, minha noiva. Foi dela que ganhei aquele cachorro. O incrível é que não foi ela quem me ensinou a amar, foi ele."
"E o que aconteceu a ela?"
"Me deixou, por um emprego melhor, por outra vida, por outro cara."
"Triste..."

Achei estranho compartilhar das dores de um estranho, me interessar assim. Peguei meu casaco, minha conta estava paga, estava achando aquilo estranho e resolvi me retirar.

"Hoje não vai morrer de frio!", me sorriu ainda triste e voltou a encarar a vidraça. Lá de fora eu via aquele rosto coberto de mágoas olhando para a livraria. Me senti mais vazia pois havia gostado de ver uma pessoa contente, se divertindo.

***

Acordei atrasada no dia seguinte, procurando meus textos, era o dia de levá-los na editora para avaliarem meus poemas. Não era escritora profissional, trabalhava num museu e às vezes com pesquisas free-lance numa empresa de restauração de obras de arte. Estava de férias, por mais de noventa dias.

Quando passei no psicólogo da última vez, achou melhor que eu me afastasse um pouco do convívio com as pessoas, era um distúrbio de não sei o que. Até hoje não entendo bem, porque meu psicólogo me chamou para passar as férias com ele em Paris. O importante é que tenho três meses para me recuperar do cansaço físico e mental.

Não que não gostasse do que fazia, mas não gostava de ter que me relacionar com as pessoas, às vezes me fechava demais e tinha comportamento estranho, agressivo.

Comecei a sentir falta de Kennedy, novamente, hoje pela manhã, após um sonho estranho em que ele vinha e me fazia carinhos ronronando. Ele nunca me fez isso. Nunca ninguém demonstrou afeto por mim. Por isso saí tão cedo de casa, já que não me identificava com ninguém e ainda não me identifico.

Meus papéis quase que saltavam da pasta. E eu corria escada abaixo, trombei com o vizinho do quarto andar, me desculpei e ele me chamou: "Ei! Deixou cair essa folha".

"Para um grande amor", estava escrito nela. E ele disse: "Por isso nunca aceitou meus convites de tomarmos um chá, me desculpe."

Dei de ombros e arranquei-lhe a folha da mão. Corei. Era somente um poema, nem sempre o que escrevemos é o que sentimos. Não mesmo. Foi numa fase de ódio, fase negra, corroia-me.

Estava no ponto aguardando um táxi e avistei do outro lado da rua o rapaz alto de cabelos esvoaçantes com seu cão e uma bela garota ao lado, abraçando-o de forma calorosa.

Abaixei a cabeça, fiz sinal e entrei no táxi. Em poucos minutos me pus a chorar. E o taxista me perguntava o porquê. Nem eu sabia. Era o nervosismo. Poesia era o meu mundo, se não aceitassem, se me reprovassem não iria mais conseguir escrevê-las.

Nesse dia deu quase tudo errado, havia perdido minhas contas a pagar que logo iriam vencer, cheguei atrasada e perdi a entrevista, voltei estranha e ainda tomei chuva.

Na entrada do meu prédio deixaram um caixote, estava no meio da porta. Afastei com os pés. E algo chorou, era um filhote, um cãozinho amarelado, parecia uma mini raposa. A chuva apertou e eu entrei. Pisei em minhas contas com o sapato sujo de lama.

Haviam deixado lá com um bilhete:
"Moça que gosta de sentir frio, deixou essa pasta no Café. Foi um custo achar seu apartamento, ninguém te conhece.

Ass: Dono do cachorro que te amedronta."

Me passou uma corrente elétrica pelo corpo, o frio. Corri e enchi a banheira. Da grande janela eu via a cidade toda, iluminada, já com decoração precoce de Natal. Sentei na borda da janela enquanto o barulho da água me confortava.

"Kennedy... nunca te fiz um carinho decente".

***

Após alguns dias em total reclusa, produzindo mais e mais poemas para uma segunda entrevista, me vi mergulhada em dúvidas que nunca tinham me surgido antes. Rasgando papéis, queimando alguns na lareira. Me desfazendo de tralhas, encontrei um número perdido, resolvi ligar.

"Por favor, quem fala?"
"Quem gostaria?"
"Me desculpe, achei esse número perdido, pensei que pudesse ser algum conhecido."
"Linda? É sua voz! Linda!"
"Quem fala? Por favor!"
"Eu deixei meu número no seu casaco, faz alguns meses, na última vez que nos vimos na biblioteca, você estava de cardigã vermelho..."
"Desculpe, foi engano."

Desliguei. E me desliguei. E desci as escadas o cãozinho estava ensopado e a caixa já se arrebentara toda, ele tremia e chorava. Peguei-o e subi correndo. Enrolei-o numa toalha e esquentei o leite, enchi a banheira e me pus a chorar com ele.

Ele gania... Como se tivesse perdido o rumo. Estava muito magro e debilitado, devia estar a quase uma semana sem se alimentar direito, meu Deus! Era só um filhote! Um bicho qualquer, eu nem gosto de bichos, como eu chorava.

Dei-lhe banho. Fiz um mingau e preparei uma cama no hall, fora do apartamento. Ele passou a noite chorando e o síndico me disse para ou colocá-lo para dentro ou jogá-lo na rua. Infelizmente não achei uma caixa seca para colocá-lo na porta do prédio novamente.

No meio da noite ele chorou e subiu na minha cama, eu estava cansada demais para despachá-lo e ele dormiu feito um gato encostado na minha barriga.

***

Era fim de semana e todos saíam para passear. Fui ao pet shop e fiz umas compras para o novo hóspede. Lembrei de quando deixei Kennedy no veterinário, após seu tiro na cabeça, quando me entregaram o corpo preparado para o enterro. Eu dei uns trocados para um velho e ele se livrou do corpo. Só não joguei no lixo junto com meus papéis e outros detritos porque os lixeiros haviam feito greve naquela semana, iria apodrecer.

Deixei o filhote com o veterinário e voltei para casa com a quinquilharia toda... No caminho avistei novamente o rapaz alto com seu cão e a moça bonita ao lado. Olhei para mim mesma, com minhas roupas de velha e me senti um pouco mal. Fui carregando as sacolas e ele me avistou, deixando o cachorro com a moça e correndo ao meu encontro.

"Moça que gosta de sentir frio! Hoje deve estar detestando né? Tá um calor! Eu gosto de frio também.", acenou para a garota como se pudesse levar seu cão para a casa e fez sinal que depois ligava.

"Foi fazer compras?"
"Ah não, são só bobagens."
"Eu te ajudo.", e pegou todas as sacolas.

Ele não quis me deixar subir as escadas sozinha e ainda me fez abrir a porta para que colocasse as sacolas num lugar de onde eu não iria mais ter que carregá-las.

"Aconchegante.", disse olhando ao redor.
"Obrigada."
"Posso usar seu banheiro?"
"Sim... Espera!!!", lá fui eu juntar a toalha que sequei o cachorro, espirrar um spray cheiroso e juntar pêlos dele que estavam pelo chão, não tinha tido tempo de limpar.

"Pronto!"
"Começou a chuva..."

Assim que ele voltou, a chuva apertou de forma que parecia que o céu ia desabar.
"Moça, já me vou."
"Ok, leva um guarda chuva."
"Não vai adiantar... Hã... estava esperando alguém?"
"Não, por quê?"
"Posso esperar a chuva amenizar? Desculpe o incômodo."
"Ah, sim."

Um estranho no meu sofá! Um estranho no meu sofá! Mudando o canal da minha TV e mexendo nos meus livros! Tem um estranho na minha casa!

***

Não demorou muito a chuva cessou de vez, mas a conversa estava até interessante, ele já tinha tido experiência com artes e esse foi nosso ponto em comum. Chamei-o para uma exposição que eu iria ser curadora, daqui a uns dois meses. Como eu fiz isso? Eu pretendia continuar a vê-lo? Não, o acaso esteve presente sempre nos nossos encontros.

Fiz um jantar de última hora bem caprichado, eu não estava acostumada a ter visitas na minha casa.

"E o que tanto você comprou?"
"Bobagens."
"Já vi que você é bem reservada, eu devo te causar desconforto."
"Jamais!", disse atônita. Era o vinho branco...

Calei-me. Ele entendeu a mensagem e foi se retirando.

"Aliás, não posso ficar te chamando de 'Moça que gosta de sentir frio', você deve ter um nome, certo?" e mexeu nas mechas que caiam no seu rosto.
"Rita."
"Brian Fantosi. Me chame de Fantosi se preferir."
"Tá".
"Devidamente apresentados, mesmo que tarde, vou indo.", me deu um abraço de despedida ou de apresentação, meu estômago doeu, comi demais.

Assim se foi e eu fui desembalando as coisas e criando um espaço para o novo hóspede temporário, porque assim que melhorasse ia despachá-lo. Não ia criar um depósito de pulgas no meu apartamento.

***

Passei mais dias compenetrada nas minhas produções, o dia da entrevista se aproximava e era minha última chance. Estava louca e meus sentidos me perturbavam, não escrevia coisas de boa qualidade, escrevia coisas estranhas. Coisas de pessoas que se gostam, coisas de pessoas felizes que andam de mão dadas e se beijam. Eu não queria mais sair de casa. Mas precisava de inspiração.

Fui ao parque e lá estava deitada na grama com uma roupa de velha e os cabelos semi-desgrenhados. A moça bonita, lá estava ela, abraçada com um homem mais forte, mais bonito. Me preocupei. Me preocupei muito... Afinal o que era Brian na minha vida? Um conhecido que me ajudou a carregar as sacolas e que um dia me ofereceu uma blusa. Só.

Meu celular tocou e na semana não atendia. Era do veterinário, havia me esquecido do bicho. Caramba! Levei uma bronca porque pensaram que eu tinha abandonado. Bem que ofereci um dinheiro a mais para que ficassem com o filhote de raposa do mato ou seja lá qual for a raça daquele pulguento.

Acabei levando ele de volta pra casa. E todos os dias saia com ele na coleira para tomar ar fresco, conforme indicação médica. Então num desses dias...

"Rita que gosta de passar frio!"
"Olá."
"Adotou um amigo também? Calma amigão.", disse puxando o monstro que queria comer a mim e ao filhote.
"Ah não, ele estava na porta do prédio, levei ao veterinário e quando melhorar vou arrumar um canto pra ele."
"Ele parece estar feliz com você, olha o olhar de gratidão."
"Não, deve ser fome, Kennedy fazia essa mesma cara."
"Kennedy?"
"Sim... Kennedy.", me deu um aperto no coração e voltei pensativa pra casa.

Deitei na cama e o cãozinho se deitou ao meu lado, por uma força oculta o abracei e comecei a chorar e pensei em procurar Brian, ele estava sendo enganado e ia passar pelas mágoas de novo e eu não veria mais a cena que me fazia feliz, o sorriso dele e o cachorro a pular.

"Você não tem um nome... será que precisa de um?... Roosevelt. Você vai crescer e ser tão forte quanto um presidente, assim era Kennedy."

***

Passei diversos dias só na companhia de meus papéis e de Roosevelt. Ele me lambia, pulava e eu achava ruim na maioria das vezes, até que não ligava mais. A cada dia que passava, a memória de meu gato morto se avivava e comecei a sentir o que nunca havia sentido antes, remorso.

Não só por ele, mas pelo sentimento que eu não deixei desenvolver. Pelas pessoas que passavam pela minha vida e eu as ignorava. Eu percebia mudanças e não queria aceitá-las.

Numa tarde, encontrei um papel embaixo da minha porta e era o telefone de Brian. Guardei num casaco que não usava e não saí de casa por duas semanas.

Faltava somente mais três dias para a entrevista que tinha sido adiada novamente há uns dias atrás.

Durante dois dias fui à praça para ver se encontrava inspiração, encontrei a garota bonita com Brian, os dois deitados na grama, mais o cachorro. Me senti estranha e não consegui mais escrever nada. Outro dia encontrei-o na padaria e me escondi atrás da prateleira de tortas.

Ontem ele veio aqui e eu não atendi, fingi que não estava em casa. Somente ao lado de Roosevelt me sentia melhor, estranhamente melhor, a ponto de levá-lo na praça para passear. E a cada dia Kennedy vinha me visitar nos sonhos, como uma assombração.

***

Acordei cedo para a entrevista e deixei Roos dormindo em minha cama, estava frio. Cheguei lá e deu tudo certo, adoraram minhas poesias e me ofereceram uma coluna numa revista literária. Disseram que meus poemas eram ótimos e que poderiam vir a participar de uma compilação.

Fiquei radiante com a notícia! Mas não tinha ninguém para ligar. Não tinha amigos, nunca tinha me incomodado com isso. Não que me incomodasse, mas seria legal dividir com alguém. Na volta ocorreu uma coisa, um cara tentou assaltar a moça que estava na minha frente e trombou em mim, minha bolsa caiu e o outro passou por cima. Meu notebook estava lá, com todas as minhas notas e referências e artigos para a revista. Além das pesquisas, uma que estava interrompida.

Entrei em pânico e fui para casa, procurei o numero de Brian num dos casacos velhos. Liguei chorando e desesperada, ele não podia sair de casa, pois seu cachorro estava doente. Fui até ele.

O apartamento tinha um ar bem masculino e não tinha vestígios de fêmea por lá. Era só ele e seu cão. E a moça bonita deveria ir lá às vezes. Eu devia ser sua amiga geek pré-histórica. Amiga... Eu tinha um amigo? Eu o considerava assim?

"Ah, você não perdeu nada, só consertar essa peça aqui, mas eu tenho um que não uso, vou passar tudo pra lá. E mais cuidado por aí."
"Sabe, estou triste e não sei o porquê. Deveria estar bem já que consegui o que eu queria lá na editora."

Ele se preocupou comigo e me ofereceu uma bebida quente e disse para eu ficar lá um tempo. Buscou Roos em casa e fiquei por lá. Os quatro.

Ross e Greek se deram muito bem. Greek, o cão gigante.

Assistimos a um filme engraçado e eu ri bastante, não fazia aquelas coisas. No fim me deu sono e disse que ia embora. Mas ele disse que era tarde, que eu poderia dormir por lá.

"Eu quero que você fique. Tá divertido. O Roos tá gostando!".

Dormi por lá e na manhã seguinte acordei com algo me acariciando...

"Roos? Greek?", e dei um grito, era Brian. E assim que tentei me mover, ele me acalmou e acabou por me beijar. Desses beijos de cinema, telenovela, essas coisas que só vejo em telas grandes. Nunca na tela em que se passa a história da minha vida.

"Sua namorada!!!", gritei, não tive tempo de ouvir a resposta, somente vi uma cara de interrogação. Peguei Roos e fui para casa. Novamente não saí nem atendi ninguém por um tempo, foi quase um mês. Me aprofundei numa pesquisa que retomei e fiz mais alguns artigos para a revista.

Nesse meio tempo confuso, ouvia passos em meu apartamento, passos silenciosos, de felino. Ouvia miados, apenas abraçava Roos e ele me protegia, mesmo com um décimo do meu tamanho.

Foram noites e noites assi. Roos ouvia às vezes. Era Kennedy, agora que tinha me apegado ao cãozinho, ele aparecia, e eu entendia que tinha sido uma péssima dona.

***

Numa tarde de clausura, a editora me ligou, me propondo um livro, inteiramente meu, que fosse vendável e que tivesse a minha essência, para eu lhes mandar algo no prazo máximo de dois meses e minhas férias iam acabar.

Não saía de casa senão para as necessidades básicas. Brian sumiu. Nunca mais tinha o visto, quando ia para o café para ver se o encontrava por acaso ou quando levava Roos para jogar frisbee, já estava mais encorpado, crescera rápido. Me disseram que ele havia se mudado pois seu cão adoecera e foi tratar dele em outro estado. Mas não sabiam de seu paradeiro.

Seu número não tinha mais. Se foi junto com milhares de papéis inúteis.

Assim me pus a escrever e a ser atormentada por um gato-fantasma. Nada do que escrevia estava bom. Chorei noites e noites seguidas e Roos chorava comigo. Era meu melhor amigo e o remorso aumentava cada vez mais.

Não achava idéias para o livro, procurava inspiração em outros livros, em músicas, em exposições de arte, nos meu recortes, nos esboços. Entrei em desespero e revirei a casa inteira, joguei coisas no chão enquanto chorava e desmontava tudo. Uma caixa de fotos caiu e rasguei muitas delas, onde tinha minha família que havia me esquecido, meu primeiro namorado que me traiu. A formatura, os ex-colegas. Achei uma foto pequenina, um pouco corroída por traças.

Caí sentada e dei um grito. Uma foto de Kennedy comigo, ele apertava a cabeça contra meu peito, ouvia até seu ronronar, ele me acariciava e eu com um semblante frio. Apertei a foto contra mim e chorei a noite toda, Roos se afastou como se quisesse me deixar com minha dor, como se tivesse mesmo que passar por aquilo. Dormi alí mesmo no chão frio da sala, agarrada a uma almofadinha que achei debaixo de um móvel antigo. Era seu brinquedinho preferido.

A foto quase de desmanchou com minhas lágrimas. Solucei tanto que vieram saber o que havia acontecido à jovem solitária do sexto andar.

Após um bom banho, recolhi tudo e recomecei a escrever, no notebook de Brian, agora chorava sua ausência e a de Greek também, apesar de nunca ter deixado me apegar a nenhum deles.

***

O prazo havia se esgotado. E o livro estava pronto, mandei-o pela manhã para a editora e tudo estava indo bem. Menos minha saúde. Por não fazer outra coisa senão escrever. Ler e escrever. Não me alimentava direito, mas continuava a levar Roos todos os dias para passear. Me tornei uma exímia dona. E mesmo muito atarefada arranjei tempo para visitar a família e bater papo com os vizinhos.

Reencontrei o rapaz que havia conhecido na biblioteca em uma das minhas visitas para pesquisar obras de arte. Conversei com ele, que quis me dar seu número novamente, mas dessa vez não aceitei por não querer sair com mais ninguém, mas que poderíamos ter boas conversas por lá mesmo.

Minha mudança foi tamanha que até minha forma de vestir ganhou um novo olhar. Já não usava as roupas de velha, mas ainda continuava com minhas roupas que combinavam com minha forma estranha de ser.

Alguns meses depois fui convidada a ingressar num importante programa de restauro de patrimônios e logo meu livro seria lançado. Eu estava no ápice da felicidade, mas alguma coisa ainda me deixava mal.

Mandei convites do lançamento do livro para muitas pessoas que agora faziam parte da minha vida. Seria na livraria perto do Café que costumava ir.

***

Logo chegou a noite do lançamento e o coração apertado, por tantas perdas e mudanças repentinas, apenas Roosevelt continuava fielmente do meu lado. Me preparei e fui com uma roupa elegante, cumprimentei meus convidados e conversei bastante. Tirei muitas fotos e senti que estava vivendo de verdade pela primeira vez.

Olhava para a foto restaurada de Kennedy que ilustrava a capa do livro "Querido Kennedy".

Chegou a hora dos autógrafos e eu me sentia vazia. Sentada na cadeira vermelha com uma fila à minha frente. Sentada e olhando para as pessoas, assim como naquele dia frio sentada no banco da praça. Assim como no dia em que vi a felicidade através do abanar de rabo de um serzinho tão radiante como Greek.

A fila foi andando e fiquei horas ali sentindo esse vazio. Como repetidas vezes, o próximo da fila:
"Com dedicatória à?"

Quando ouço uma voz interessante, acompanhada pelos cabelos sendo expulsos da face por um movimento ligeiro:

"Ao dono do cachorro que te amedronta."
"E você não sabe o quanto foi difícil eu entrar aqui novamente."

Era Brian! E eu sorri de verdade e levantei e pulei e o abracei. Meu amigo Brian. Depois do susto e da surpresa... "E Greek?"

Greek havia morrido há uns dias atrás. Uma doença complicada, ele gastou muito e tentou de tudo, mas os anjos levam crianças, animais e qualquer outro anjo quando chegada sua hora.

***

Dias depois fomos ao cemitério de animais onde Greek havia ganhado uma lápide com uma singela homenagem, foi quando percebi o sentido de todas as coisas que acontecem, foi quando Kennedy me veio à cabeça e quando Brian olhou com lágrimas nos olhos, por saudade do amigo. Eu encarando a lápide:

"Ah Kennedy, eu te amava e nem um enterro descente eu te dei."

Chegando em casa, Roos estava deitado na cama e veio nos recepcionar, fiz festa e logo nós três brincávamos no tapete. Rolei por cima de Brian e olhando seus cabelos que não paravam por um instante longe da face, admiti:

"Você me faz me sentir como Kennedy queria que eu me sentisse e eu o tratei como trapo. Eu quero te amar, coisa que não pude fazer a ele. Às vezes são esses bichanos mesmo que nos ensinam o que é o amor. E só pedem carinho em troca, às vezes nem isso". Disse dirigindo meu olhar para a pequena cômoda, onde montei um altar para meu querido Kennedy, na véspera de Natal.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Espelho ao avesso


A dama havia saído do banho. Depois de uma noite agitada no centro. Com milhares de pessoas importantes. Com todo aquele teatro. Aqueles encantos antigos dos jovens a pageá-la, a cortejá-la. Cansada de toda essa coisa.

Pousou em frente ao seu espelho gigante de moldura dourada, ornada com lindas volutas, voluptosas como seu delicado e embriagante corpo. Sentou-se na cadeira de estofado verde musgo que contrapunha com seu batom carmim.

Seus cabelos louro-escarlate. Uma cor somente dela. Talvez próprio para aquela dama. Pendiam sobre seu manto verde, verde filho daquele da cadeira, ainda vívido.

Se olhava e penetrava o olhar através do espelho. Agora se via através dele, atrás dele, nele e o espelho agora assistia a dama a olhar-se.

Fazia gestos com a cabeça, mudando de ângulo. Afastava o cabelo da face, prendendo-o de forma desorganizada, como se para somente ver o que estava encobrindo.

Desceu o manto até os ombros e foi deixando-o cair. Filmando-se. Sua iamgem a agradava. Podia não ser a mais bela de todas, atraía os homens errados. Mas ela gostava.

Percorreu seu olhar por todos os cantos do espelho que revelava uma sala forrada com tecidos adamascados e cortinas de veludo na cor vinho com detalhes em ouro envelhecido. Uma iluminação sutil, que a tornava uma pintura renascentista.

A tez branca como leite e rosada como as bochechas das virgenzinhas. Um outro ponto foi chamando-lhe a atenção assim que descera a capa caíndo em seu colo. Duas auréolas delicadas e com aparência macia como pêssego. Logo que viu encolheu o corpo dando volume aos seios pequenos e enrijecendo os pontos rosados.

Sua face corou levemente, de forma virginal e inocente. Suas pernas juntas se contorciam pela vergonha que sentia, apesar de estar só. Encarou-as e foi as separando de leve revelando outra cena oculta.

Suspirou e mordeu os lábios, fechando bruscamente as pernas. Pondo as mãos no peito e respirando um tanto assustada. Sorriu discretamente. Acariciou um dos joelhos e foi puxando-o forçando a se abrir. Assim como as flores mais belas que vão se abrindo ao passar dos dias, com o toque quente e suave de cada sol da manhã.

Viu-se totalmente num ângulo obtuso. Revelando sua intimidade que pulsava de forma tímida. Sua respiração a condenava, ofegante e irregular.

Hesitava em mexer as mãos, em mover-se. Mas foi adimirando cada pulsar e cada sensação que lhe percorria o corpo todo. Apertou os seios que mal enchiam suas mãos.

Levou uma mão à boca como se tentasse silenciar sua satisfação. A outra descera até o ventre e alí parou. Alí era seu limite. Quis fechar-se mas não conseguia. Ansiava muito, muito.

E então desceu e desceu. Segurando-se num dos braços da poltrona que abraçava seu corpo participando daquele rito. Segurava como se fosse cair a qualquer momento, como se fosse seu amante.

Sentiu uma pequena corrente elétrica passando por todo o seu corpo, e voltando a origem. Seus dedos tremiam mas sabiam bem o caminho e logo sentiram as pétalas ornadas por orvalho, úmidas como na manhã. Tocadas pela neblina que respira ofegante a ausência do calor do dia.

Lá se foi. A dama corava e jogava sua cabeça para trás, se afundando na poltrona. Ainda tentando conter seus gemidos tímidos de moça virgem. Ainda tentando esconder-se de seus olhos.

Mas o espelho a fez encarar-se e então sentia mais e mais a vontade de virar ao avesso, de entrar em si mesma. De continuar aquilo que nenhum rapaz a fizera sentir nunca na vida. Com todas as suas tentativas.

Ela amava somente a si mesma de forma a nunca entregar-se por inteiro. Reservava um pedaço para ser somente seu, somente de seu acesso.

Seus olhos se encaravam, e o fogo que neles brilhava punha mais desejo em seu corpo. Como se agora nem ela pudesse se satisfazer, nem um rapaz, nem um ser divino. Seu rosto tornou-se diabólico e as mãos não eram mais as suas.

Mas um último gemido de luxúria trouxe de volta a garota pura. Que se desmanchava na poltrona. Violada por si mesma.

segunda-feira, 28 de março de 2011

A torta de morango


Você chega numa doceria, naquela que você sempre vai e sempre admira seu doce preferido e sabe que é o melhor de todos, a torta de morango! Então se debruça no balcão como uma criança e pede a sua torta de morango.

- Ah! Essa você não pode comer, está reservada. Mas tem a de limão.
- Ahhh...

Fica triste e que coisa! Ainda quer comer um doce, nem que seja a torta de limão, ligeiramente azeda. Pede um pedaço, e come imaginando a de morango, quase que sente o sabor, mas logo vem aquele azedinho e te dá arrepios.

- Uhhhhh...

Ainda queria a de morango, a vistosa e apetitosa torta de morango. Quem sabe outro dia, quando passar pela doceria, ela não vai estar lá, esperando por você?

Tortas de morango, tabuleiros de xadrez. Às vezes as imagens que formam em minha cabeça lembram algo como 'Alice no País das Maravilhas'. Porém no meu sem tantas maravilhas.

- A rainha! - sim, ela passa por mim de sopetão. Com a bendita torta nas mãos. Devo ir atrás dela?
- Espere!
- Diga querida! - com o sorriso mais doce do mundo, ela é enorme e se curva um pouco para me ouvir. A torta não é mais a mesma, a de limão.

A figura vai encolhendo e fica um pouco maior que eu, suas ligas vermelhas aparentes, com os dedos sendo saboreados, o glacê e o creme azedo.

- Quer provar, doçura?

Não é isso o que eu quero. Morangos não são para mim.
Eles sempre me deixam com feridas. Strawberry gashes all over, all over.

Um cavalheiro, entra na doceria. Eu acordo de meus devaneios. Ele pede uma torta de morango para a moça. Ela entra e em instantes volta com a torta.

- Mas...
- Ah sim, é uma reserva.
- Ah tá...

- Mocinha, você gosta de torta de morango?
- Sim, muito! Mas sempre me fazem mal depois.
- Sério? Que coisa. Pois essa eu pretendia comer aqui, acompanhado de uma dama. Que não sei por qual motivo, não apareceu. Me dá essa honra?
- Oh, nem sei o que dizer.

Puxou uma cadeira e me deixou comer o primeiro pedaço. Ele me fitava e eu desacreditando que estivesse comendo a torta que eu mais amo. Com certeza ela me fará algum mal depois.

- Gulosa! - e sorri delicadamente.
- Me desculpe, eu ansiava tanto por ela... Perdi meus modos.
- Fica linda comendo assim.

Ah, eu coro e fico da cor da decoração da loja, vermelinha vermelinha!
Então ele também começa a saboreá-la. Esboçando sorrisos convidativos. Era um deleite toda aquela cerimônia. Até que acabamos com o doce.

- Muito, muito obrigada mesmo! Você tornou meu dia feliz!
- Eu sempre venho aqui. Coincidência nunca termos nos encontrado. Você é uma doce criança.
- Obrigada senhor.
- Não me chame assim, não sou tão mais velho.
- E eu nem sou tão pequenina assim.

Sorriu e fechou a caixa de forma rápida, fazendo barulho e me encarando:
- E então? Ainda se sente bem? - devorava-me com os olhos.
- Sim... sim... sono...

Assim fui levando, assim fui levada. Essas tortas deliciosas sempre me dão um prazer indescritível e depois de tudo soam como uma droga viciante e que destrói aos poucos.

- Sua cartola... somente ela... o quê? Ahhhn...

Abusa, lambuza e se destrói, bem aqui, dentro de mim.

domingo, 13 de março de 2011

Um beduíno



Banido ele foi
Deixado para trás

Arrastado pelo deserto
Dilacerado estava

Perdido e imerso em seus pesares

Como ninguém pôde enxergar?
Foi coberto pela tempestade

Jazia morto-vivo debaixo de toda a areia
Que era leve perto de suas mágoas

Muitas mágoas carregava

Ainda assim ansiava viver
Mais do que tudo

Esticava a mão por debaixo daquela camada fria
Aquela onde o sol não tocava
Fria demais

Até que sentiu um calor nos dedos
Atingira a superfície
O sol

Aquecia sua vontade de viver
Foi lutando e lutando

Ao ver seu bando ao longe
Ao ver o sol
Seu camelo caído

Cuspiu toda a areia que engolira
Respirou ofegante

Olhou ao redor
Somente o nada
O deserto
Sua cidade jazia em poeira
Em ruínas

Não era sua culpa
Ah, não era

Tudo o que pediu foi ser ouvido
Foi amar a pessoa errada
Tentar revolucionar

E estava alí, semi-morto
Seu camelo, seu amigo
Caído

Arrastou-se até o animal
Seus olhos umideceram
Seu único amigo
Mais semi-morto que ele

Soltava gemidos
E uma bala no peito

"Malditos!
Malditos os amigos que cultivei!
Pragas!
Pragas!"

E chorava no peito de seu único amigo
Abraçava-o
E sem mais forças o animal foi se entregando
Pouco a pouco

Numa sinfonia agonizante
Terrivelmente iluminada pela estrela-mor

A pistola, jogada a uns metro a frente
Descendo uma duna

Ela reluzia
E ansiava por ser tocada
Como uma flauta encantadora
Que livrará a dor
Que levará a dura realidade para longe

O camelo apertava as pálpebras
E o homem se arrastava ferido até a arma
E sua alma agonizava, num canto agônico sem fim

Pegou-a
Ainda restava uma bala
E seu amigo queria descansar
Lhe implorava com os olhos chorosos

Não, não teria tal coragem
Antes tiraria a própria vida
Mas a luz do sol o aquecia de uma forma divina
Mesmo sem ter para onde ir
Sem ter pelo que lutar
Nem condições mínimas para viver

Ah ele queria
Queria tentar

Mas seu único amigo estava partindo
Estava sofrendo de forma cruel

Então maldizia a todos
Maldizia seus amigos traidores

Voltou com a pistola
Fitou-a
Fitou o camelo

Pensou em tudo o que já tinham passado juntos
Pensou na vida adiante o que seria
Estava pensativo
Afundando-se cada vez mais em sua alma e na dor alheia

Eis que se ouve um zumbido
E uma nova tempestade de areia

Um avião
Um monomotor
Uma pessoa gritando e apontando

"Ei amigo!
estamos descendo para ajudar"

Despertou mais com os grunhidos do camelo
Do que com o zumbido, ele gemia
Ele suplicava

O avião baixava e um homem lhe estendia as mãos
"Vamos!" e jogava uma corda
"Deixe esse bicho aí ele vai morrer mesmo"

Então encarou o homem contra o sol
Quase se cegando

E diz:
"Sim, eu também"
Abraça a cabeça do camelo
E dispara

Somente um estrondo
Somente um imenso ruído
E um imenso silêncio

Silenciou
Tudo parou
Naquele instante as duas almas já se separavam
Do pedaço de carne semi-podre que jazia alí

Um único amigo
Foi o que lhe restou
Foi o que levou consigo
Um único

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Minha loucura, tua pena, meu amor, tua misericórdia

Aquele sangue, que nunca correu em minhas veias.
Embora seja teu, trazia-me toda a vitalidade.

Eu estava irritada e a faca alí não fazia sentido.
O que você fez? Por que se feriu?

Não te pertenço para se aborrecer assim.
O tabuleiro que me pertencia, atirado ao chão.
Peças quebradas, ah o cavalo!
O Cavalo! Como pôde?

O que te aborreceu? Conte-me, querido.

Corro pela sala, preciso atar o sangramento.
Preciso por a mão em seu peito.
Preciso tirar a dor que guarda aí.
Toda essa melancolia.

O corte não era profundo, não como a fenda que se abriu em sua alma.
Não como toda a dor que coloquei aí.
E sem saber, sem saber.

Sua palidez quase me afogava em minhas lágrimas.
Por favor, fique. Não se vá pela noite fria e escura.
Eram minhas fotos, meus poemas. Tudo queimado.

Aquelas palavras, oh, por quê?
Por que não me parou?
Por que não me beijou?
Não me arrancou a voz?

Tarde demais ou cedo demais.
Minha culpa. Minha arma.
Minha cena do crime.

Perdeu-se em seus limites.
Não aguentou ser como eu.
Viver minha vida e minha rotina.
Não aguentou ser meu guarda, meu amante e meu confidente.

Te contaria tudo, mas agora quero parar tudo.
O sangue... oh Deus, ele não pára.
E você não pára, não se entrega.
Cuido de ti, eternamente.

Sempre te amei tanto, além do comum.
Foi comigo que aprendeu essa neurose.
Essa coisa aí, o que chamam de amor.
Isso te enlouqueceu.

Apoiada na parede te vejo cair.
Se escorando, perdendo as forças.
E a corredeira rubra te acompanha.

Venha para meus braços.
Venha, me recuso a te deixar morrer.
venha minha estrela, me recuso a te deixar apagar.

Cada mundo a que pertencemos está desmoronando.
Está ruindo e seus pedaços irão cair sobre nós.
Assim, abrace-me forte. E esqueça o que te fiz.

Nunca te quis ferido, caído.
Ao meu lado para sempre, foi o que desejei.
Em minha vida, em minha morte.
Em cada pedaço de minha pele, desejei.

Me esqueci de te amar da forma que era.
Mesmo sendo impossível de se concretizar.

Sempre cuidou de mim.
Me guardou e me iluminou.
Sempre foi meu anjo.
Por que tinha que arrancar-lhe as asas?


*Dedicado ao meu amigo Roberth.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Noticiário da madrugada, em algum lugar do mundo



Ontem, todos puderam ver na cena noturna
um dragão caindo dos céus
Gotas flamejantes em seus olhos cerrados
Apertados como se apartassem a dor

As chamas coloridas que passeavam pelos céus
E olhos coloridos dos espectadores
Que refletiam tudo o que acontecia

Os raios de luz caíam mais veloz
E a torre na qual o dragão tentava se segurar
Estava ruindo

De cabeça, a toda velocidade
As pessoas mais encantadas do que aterrorizadas

Na noite anterior foi quando apareceu pela primeira vez
Na noite estrelada, se segurando na torre
E cuspindo fogo para os céus
E um grito (urro) de agonia

A polícia e os bombeiros foram chamados
E tentaram controlar a fúria do ser durante 48 horas
Por medo do desconhecido, acabaram chamando as forças armadas
Que atiraram no dragão

Ele ainda tentou resistir por algumas horas
Agarrado na torre da grande igreja central
Alguns diziam que era a besta do apocalispse
Que era o portal do inferno que estava se abrindo

Não podendo mais aguentar, se soltou e foi caindo
Caindo sem esperanças
As pessoas não se moviam
Mesmo sabendo que poderiam ser esmagadas pela criatura gigante

Tudo parou naqueles segundos
E as crianças choravam sem gritar
Somente suas lágrimas
Incandescentes e coloridas pelos reflexos

As faíscas chegavam ao chão e não queimavam
Alguns somente foram atingidos pelas faíscas
Que penetravam no corpo das pessoas
Fazendo-as brilhar

O dragão foi rodopiando durante a queda
E um círculo se formou pelas pessoas
Afastando-se

Uma explosão colorida tomou conta da cidade escura
E o dragão caiu exatamente no espaço vazio
Houve um tremor muito forte
E o silêncio reinava dentro das pessoas

Somente o estrondo do corpo da criatura foi ouvido
Seus olhos ainda fechados lacrimejavam
Mas nenhum ruído saída de sua boca

Uma criança se aproxima e é reprimida
Mas ainda assim, hipnotizada
Arrastando os fios que a ligavam ao oxigênio
Descalça e com um bicho de pelúcia junto do corpo

Se solta calmamente dos guardas
E vai de encontro à grande fera desmaiada
Largando seu bichinho no chão

Estende uma das mãos e toca o corpo umido a sua frente
Uma luz toma conta de todos, como numa aurora boreal
Espalhando-se pela cidade com a força de uma tempestade
As pessoas somente se protegem e tentam encarar a luz

Tudo passa e a anestesia dos espectadores também
A garotinha caída no chão
E o tubo de oxigênio do lado oposto

Aparece o resgate e tenta reanimar a garota
Que acorda e sorri, se levanta e corre para o dragão
Todos gritam e tentam pará-la

Ela o abraça e diz: "Obrigada!"
Escala e chora sobre a cabeça da criatura
"Queria que estivesse bem", suas lágrimas
Caem nos olhos dele, fazendo-os brilhar

E a mãe desesperada e ao mesmo tempo confusa
Sua filha perfeitamente bem e sem o oxigênio, o soro
Correndo!

Alguns soldados correm para tirá-la de lá
E se ouve um gemido do dragão
Que cospe uma fumaça cinzenta
Agonizante

Estava vivo e já se preparavam para resgatar a garota
E atirar nele novamente
Até que a garota desce para a boca do dragão
E diz: "Calma! Vai ficar tudo bem, ninguém vai mais te machucar"

O dragão geme mais uma vez
E então se preparam para atirar
"Minha filha está lá!"
"Acalme-se senhora, um de nós está indo por trás para resgatá-la"

Mais um tiro e a garota despenca nos braços de um deles
Chorando, gritando...
"Bunny! Bunny! Não morra! Eu que o inventei, ele é meu!"
Ela corre de volta e grita em seus ouvidos
"Bunny! Viva! Voe Bunny!"

Nesse momento uma gota da lágrima desesperada da garota
Cai no ferimento e ele volta a se mover, levando mais tiros
Soltando um fogo vermelho e com sangue nos olhos
Pegou a garota com a boca e voou

Todos desesperados, helicópteros tentavam detê-lo
E a menina dizendo aos pilotos
"Está tudo bem, vou com ele, ninguém entende que o amo!
Ele é bonzinho e não fará mal algum!"

Voaram e luzes coloridas voltavam a iluminar os céus
E pó colorido a cair sobre a cidade
Tudo tomou brilho e cor novamente
Todos boquiabertos e anestesiados
A garotinha gritando 'Iupiiiiii!'

A magia tinha voltado e agora retornavam ao chão
A menina vestida com seu macacão rosa
Segurando-se ao seu amigo 'imaginário'
O abraça e logo vira para sua mãe
"Ele voltou! Posso ficar com ele?"

Ela somente balbucia: "Ppp-ode!"

Naquela noite todos puderam perceber que já não tinham doenças
Não sentiam pesar algum e foram curados pelo desconhecido
Pelo que temiam e atacavam

A criança que nada entendia do mundo dos adultos
Não conseguia compreender o porquê de tanta hostilidade
Só desejava que todos fossem como ela
Que amassem o que não conhecia, o que era novo

Que nem tudo é feito de violência, de traição
Queria que todos vivessem felizes
Enxergando através dos olhos inocentes de uma criança

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Um anjo que morreu de raiva



Um anjo que morreu de raiva... Assim foi queimado pelo seu ódio.
Tentando acreditar que tudo se resolveria, que daria certo.
Permitiu dar-lhe quantas chances fossem precisas e falhou em todas elas.
Ele olhava precipício abaixo, balançava. Sua garganta seca.

O vento forte empurrava seu corpo, que resistia.
Uma pedra cai e se estoura no chão, lá longe.
Gritava como se fosse explodir.
Tudo saira de seus planos. Tudo foi pelos ares.

Uma bomba atômica em sua vida.
E o amor que nunca existiu, jamais lhe apareceria.
Ele tentou acreditar, tentou se entregar.
E acabou com uma grande lança no peito.

Sua ferida aberta e exposta ao sol.
Mas a dor não era maior que seu ódio corrosivo.
Corroía tudo e se preparava para tomar sua vida.
Balançou e seus pés não o deixaram escorregar.

Sentia medo e vontade. Queria de vez acabar.
Seu corpo a oscilar e seus gritos a se calar.
O sangue lhe escorria e a roupa colava e quase se arrebentava.

Deu um último urro! Olhou para os céus e blasfemou.
Renunciou tudo e todos. Arrancou a lança e jogou-a em Deus.
Respirou ofegante e seus sentidos se perderam.
Deu um impulso e pulou!

De olhos fechados sentia o vento passar dentro de si.
A pressão do ar contra seu corpo e a gravidade.
Tudo passava pela sua cabeça e pensou que já se separava de sua alma.
O peito se apertou e a queda foi inevitável.

Mas suas asas se abriram. E ele voou.
Foi pairando e a consciência voltando.
A lança atravessou suas mãos.
E ele agradeceu.


* Baseado na música "Ódio", Luxúria.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A garota do ônibus



Linda, me sorri de uma forma alegre. Assim ela entra no ônibus.
Encontra imediatamente meus olhos. Me conhecia?
Claro que não.
Mas me encantava.

Horário de pico. Multidão. E ela sorri, timidamente.
Eu me encolho, seus olhos pareciam me corroer.
Ai que dor apetitosa!

Abaxei a cabeça. E não vejo mais seu rosto. Logo vai se esvaziando.
Ouço o giro da catraca e ela está ao meu lado, em pé.

Temo olhar para cima e ela estar me olhando.
Ai que vergonha!
Linda...

Ela aproveita as curvas mal feitas para roçar suas pernas nas minhas.
Para me tocar. Fito-a inteiramente.

Belo corpo. Bela roupa. Bela garota.

Com seus um metro e setenta e poucos, seus cabelos louros e um ar não tão feminino.
Mas era encantadora a figura.
Morreria admirando-a.

Foi indo para o fundo do ônibus e meus olhos famintos a procuravam.
Encontrei.
Levantei-me e fui me espremendo entre os passageiros.

Então fiquei de costas pra ela. E a curva vinha e seu corpo vinha junto.
Sentia seu perfume e via sua silhueta no vidro refletida.

Sentou-se e a situação se invertera.
Curva vem e minhas pernas vão, quase que querendo enlaçar com as suas.
Disse algo.

Tiro os fones para ouví-la. "Quer que eu segure a mochila?".
Não, valeu, já vou descer gata!
É o que respondo e vejo o último sorriso.

Em minha mente já me martirizava,
quase que jogo para o alto meus compromissos e fico alí,
esperando o banco ao seu lado ficar vago.

Gata... Cheguei no meu destino.
Desço e arrumando a mochila ainda olho para dentro do ônibus.

Há! Estava ela a olhar, foi o último sorriso desperdiçado somente pra mim.
Naquele momento ela foi para mim,
só para mim
e eu me sentia a pessoa mais iluminada e sortuda do mundo.

Por um sorriso, apenas um sorriso...
Mas o acaso é assim mesmo.
Pena não ter sido em outro lugar, outra hora.
Ou pelo menos outra situação.

Linda linda linda!
Valeu-me o dia!
Valeu-me a ida!

Era um anjo!
Era um anjo!
Era um ANJO!

domingo, 3 de outubro de 2010

Ah! Ela...


Ela está escrevendo.
Ela é tão bonita.
Dorme com uma mão no rosto.
Ninguém disse a ela,
que é tão linda e tão vazia.

Anda com seus fones e música alta.
Um casaco pesado.
Atravessa sem olhar para os lados,
passos largos.

Hoje ninguém disse a ela que é bonita.
Pega um papel no chão e põe no bolso.
Está sempre com a cara séria.
Olhando pela janela do ônibus
e pensando...
Oh! Ela é tão vazia!

Nos shows agitando a cabeça,
e acompanhando a música.
Os movimentos delicados
ao abrir um bombom.

Ela é brilhante.
E se entedia com qualquer coisa.
Debaixo do sol ela fecha seus olhos.
Revira a bolsa e acende um cigarro.
Tão bonita e ninguém vai dizer...

Quando se entristece revira o quarto,
procura seus cadernos
e organiza seus papéis
Nas baladas ela canta para si mesma
e procura sempre alguém
Anda sem rumo e pensativa.
Ela é tão vazia...

Ela é radiante!
Devia vê-la ao sair do banho.
Olha para a lua e faz mil pedidos.
Sua face às vezes cora.
Meu Deus como ela brilha!

Se olha no espelho às vezes
e parece não gostar...
se reconhecer, às vezes sim...

Imagina tantas coisas...
Ri poucas vezes.
Pensa ser invisível.
Ela é tão linda...
E nunca ninguém disse a ela.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Casa Velha II



Na cozinha havia um bule verde de esmalte em cima do fogão
Com um cafe tão velho quanto a casa
A luz amarelada deixava tudo mais encardido

Será que o café-veneno me fará despertar
Ou cair de vez?

Andei sobre os azulejos preto e branco
Me senti a rainha no xadrez
Onde estará o rei?
Os peões, o bispo, a torre...

Deviam estar escondidos
Como tudo nesse lugar
Cada qual em seu mundinho

Os armários de cor goiaba
Quando os abria, rangiam
Poucas louças e muito pó

Acendo um cigarro e me jogo na mesa
Tudo parece escuro
Tão silencioso
Que me dói os ouvidos

Gritos
Pessoas na rua cinzenta
Brigando como sempre
Tentando ser só uma unidade

Esperar...
Hei de esperar
Com névoa na mente
E chuva no olhar

Minha boca seca
Chama o veneno do bule
E o tomo esperando ser o fim
Ou o começo de tudo

Caneca branca descascada
Toca meus lábios como ninguém tocará
Molha minha boca, invadindo
Quente e prazeroso líquido

A mesa estava com a pintura gasta
As cadeiras com o estofado surrado
Azulejos no teto
Verdes... a casa era toda com algo verde

A janela com cortina xadrez
Tudo clássico
Tudo acabando-se
Sentia falta

A vida um dia esteve ali
Ela simplesmente fez as malas e partiu
Não mais um lar
Um átomo no espaço

Também fui um lar
Hoje sou uma casa de caracol
O animal que dentro morava
Partiu e não mais voltará

Minhas unhas roídas
O frio me corre o corpo
A porta que dá para o quintal
Estava entreaberta

Fechei-a
Mas antes vi a janela do vizinho do lado
Um rapaz bonito se trocando
Ai, preciso de algo

Me abraço
Me aperto
O frio passa
E o vizinho acena e fecha a janela

O show nem começou
Peep show cairia bem

Passei as mãos pelo meus cabelos
Que já estavam mais oleosos que a parede daquela cozinha
Necessitava de limpeza
Eu e ela

Largo a xícara por cima dum balcão
Volto pra sala escura
Olho tudo e me dá tristeza
Profunda solidão

Era só eu no mundo
Eu e o gato
Que se tratava como Solitário
Era só eu...

A lua me olhava
Me convidava a dançar
Mas as pernas cansadas não iam acompanhar
Necessito de música

De um fogo para meu corpo
De qualquer prazer tenro
Uma fagulha de alegria
Uma risada ainda que fria


Fim do segundo capítulo

domingo, 12 de setembro de 2010

She's lost control


Ela perdeu o controle de novo. E perdeu as esperanças. Perdeu-se em tudo o quanto poderia perder. Andou sobre os trilhos e parada pensou: "Como seria andar sobre as nuvens?". Esperou pelo que a levaria até lá. Foi pulando de dormente em dormente se equilibrando. "A vida é demais para mim". Queria brincar com o perigo. Amou o tanto quanto podia amar, odiou na mesma intensidade. Nada mais cobria o vazio que ela criou para si. Ela perdeu o controle de novo. Seus braços abertos como se pedisse rendição. O vento quente tentava agradá-la. Nada mais fazia sentido. Em seus olhos nada além de um olhar perdido. Em sua boca jaziam gritos aturdidos. Fora pressionada tanto quanto aguentava. E agora seu corpo era somente um corpo. Ela perdeu o controle. Só lhe restava uma música em seus ouvidos e ela a balbuciava calmamente: "She's lost control, she's lost control again, she's lost control...". Olhou para o sol da tarde. Pensava se podia aquecê-la. Usou de sua morbidez para se tornar feliz. Seus parentes achavam-na esquisita. Ela achava felicidade na tristeza. Deu um pulo e se abraçou. Seus medos haviam se perdido. Os exageros eram mínimos perto do que sentia. Sua pele rachada se partiu. Sua mente embaralhada não deixava-a pensar. Ouviu-se um apito. Ela girou e perdeu o controle de novo. Cansada, deitou-se nos trilhos.


*Baseado na música "She's lost control", Joy Division.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Desejo Turvo



A dama toca seu camafeu partido. Toca seus lábios, seus cabelos bagunçados. Olha ao seu redor. Sentada ao chão e ao seu lado um corpo de um homem. Se levanta e nua anda pela sala, aflita. Tenta colocar sua cabeça no lugar. Olha para o homem, com seus cabelos esparramados no chão e... sangue.


Uma poça de sangue que se esvai de sua cabeça. Desesperada se abaixa e delicadamente toca o corpo jogado. Está quente. Mas não se sabe se ainda está vivo. Pele macia. Corpo de bruços. Com uma força agonizante tenta virá-lo. Sem sucesso.

Deita sua cabeça sobre o homem e chora. E chora. Não foi sua culpa. Foi um acidente. A dama desesperada e o cavalheiro sangrando. De sopetão, vira-o e bate em sua face.
Desacordado ainda. O que fazer?

Pele macia. Pele sedosa. Passa-lhe a mão sobre sua seda. Tenta despertá-lo. Desperta a si mesma. Corpo nu e sangrento. Jogado. Quebrado. Partido. Olha sua face imóvel. Um anjo a descansar. Ainda alí? A alma está?

Desvestiu seu camafeu. Segurou-lhe pela ponta dos dedos. Pendendo sobre o corpo, como um pêndulo. Caminhava até o ventre. Tinha calafrios. Engolia seco. Respirava ofegante. Olhos fechados. Pensamentos turvos.

Abre os olhos. Volta a si. Toca o peito desnudo do homem e não sente batimentos. Agonia toma conta de seu ser. Põe se em cima do corpo e bate em sua face. Grita. Chama. Cai. E chora, derramando suas lágrimas no rosto alheio. Suspira e suspira. Encara-o chorando. E beija seus lábios. Doces e secos.

Afasta sua face. Continua posta em cima do corpo. O sangue não mais derrama. Ajeita-se. Lágrimas escorrem e seus olhos se reviram. Treme. Apoia no tórax abaixo de si. Impulsiona. Impulsiona. Impulsiona. Ajeita-se. Impulsiona. Impulsiona. Chora. Ofegante e aflita. Revira os olhos inundados. Impulsiona. Impulsiona. Impulsiona!

Cai. Cai sobre o corpo. De ouvido no coração. O coração bate. Bate mais forte. Quase explode. O cavalheiro não estava morto. Apenas desacordado. Agora voltava a si. Respirando com dificuldade. Estava acordando. E a dama tendo um orgasmo.



quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Casa Velha



A Sala fica vazia
Mas eu ainda estou lá
Antes do acontecido
Nada me prendia
Hoje me encontro no vazio a esperar

O mundo corrido me deixou mais sossegada
Mas ainda não consigo deitar e dormir
De noite surge tudo o que não me passou durante o dia

Aquela sala continua vazia...
E seus móveis continuam os mesmos
A penumbra é a mesma

As coisas andam sem cor lá fora
Será que drenaram as cores da vida?
Não me incomodo, pois daqui não sairei

Estou a esperar...
Já faz tanto tempo
Nem sei precisar quanto
Talvez alguns anos

A sala está fria
Com suas paredes verdes
Com seu piso de madeira escura
Com a lareira inutilizada

Pela janela se vê a neblina
E nem estamos no inverno
Talvez só queira avisar
Que os sonhos foram dissolvidos

O teto está tão velho
Cairia sobre minha cabeça
O relógio está parado
E a cortina nem se movimenta

Se ouve barulho de carro
Tão velho quanto essa casa
Gente sai e gente entra pelas casas
Mas ninguém se cumprimenta

Ainda espero...
Mesmo que pela eternidade
Mantendo a castidade da minha palavra
Vou esperar

Na sala escura e mofada
No tapete gasto
Ao pé da mesa roída
Olhando a luz fraca do abajur

Barulho na escada
Gente chegando
Não...
Era o gato entrando pela portinhola

Do chão se vê o teto
Suas molduras
A tinta gasta do batente das portas
As janelas fechadas
Com a exceção de uma
A única que mesmo daqui vejo o luar

Nem que seja uma míngua de lua
O brilho chega até mim
E ilumina meus cabelos esparramados
Meu corpo largado
Torcido para a direção da porta

O silêncio é ruidoso
Nessa calada atmosfera
Tudo é tão mudo
Nem sequer um miado

Eu disse
Vou esperando
E observando
Posso narrar tudo o que vejo
Durante mais 30 anos
E ainda terei mais o que narrar
Cada detalhe me chama atenção

Um filete de ouro no rodapé
Um veio de madeira em forma curva
Um arranhão no pé da poltrona
Um vidro trincado da cristaleira

Minhas botas jogadas perto da porta
Minha bolsa em cima da mesa de centro
Um livro embaixo do sofá
Um gato a me olhar

Um Jesus me estendendo as mãos
Um outro quadro com senhoras pintadas
O papel de parede com desenho de flor de lis
O velho baú ao canto da sala

As cadeiras com o estofado desfiado
As janelas escuras com o verniz descascado
O vidro embaçado, a lua a me olhar

Já está na hora de aquecer o coração dessa velha casa
Tentarei acender a lareira
Com meu isqueiro e as folhas do diário
Que não servem mais para nada
Além de lembrar os fatos não ocorridos

E vou destacando as paginas
A festa que não aconteceu
O encontro que não vingou
O presente que não chegou
A música que não ouvi
O crepúsculo que não presenciei
O horizonte que não busquei
A poesia que não escrevi
A carta que não mandei
O livro que não li
O rapaz que não amei
A dama que não fui

O olhar que não deixei
A cama que não arrumei
O juízo que não me apareceu
O calor que não resfriei
A nudez que não pedi

Foi o único dos não ocorridos que fizeram menção de um fato
O resto foi ensaio
E não saiu do papel
E se agora sai
Vai para o fogo
Para aquecer meu corpo
Para que tenha força para lutar pelo que ainda lhe resta
O que ainda está por vir
Que não ficará na página de um caderno qualquer de anotações


Fim do Primeiro Capítulo
Bi Manson

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Um conto do Acaso



Dançou comigo. Naquela noite foi a primeira e a única. Desapareceu por entre a fumaça.
Não esperou que lhe dissesse meu nome, não fui a única.
.
Antes olhou-me nos olhos, mas quis evitar.
Desviei o olhar para um rosto jovem porém acabado que estava na direção oposta,
dançava sem pudor algum.

.
Puxou-me pelas mãos, sim, a garota! Queria minha atenção?
Não, estava somente a procura de um par.
Logo eu, que nem sei dançar.

.
Queria sair da pista, então dei-lhe um puxão.
Não me tire daqui! - disse tentando me fazer ouvir.

.
Soltei suas mãos e saí. subi as escadas. Passei pelo bar.
Sentei num lugar vago.
Apaguei por uns minutos, creio que não tenha passado muito tempo.
.
Acordei confusa e sonolenta com uma mão a roçar nas minhas.
Olhei repentinamente para o lado.
Aê! Acordou! - um semblante muito animado me dizia.
.
Me fez mil perguntas. Qual seu nome.
Está gostando da balada. Curte tal banda.
Não respondi uma sequer.
As pausas se tornaram maiores entre uma pergunta e outra.
.
Tá sozinha? Depois dessa um beijo, ou um quase beijo.
Empurrei-o e me levantei.
Voltei à pista. Tudo se movia com rastros.
Colocaram algo na bebida. Mas, nem descuidei do copo...
.
Ouço um "você!" sussurrado ao ouvido. Virei-me. A garota!
Dança essa comigo! -disse.
Dancei ainda que descoordenadamente, me guiando pelos movimentos dela.
.
Você não parece bem. foi a última coisa que ouvi, depois disso,
já estava num sofá meio que deitada e ela a me segurar, me dava água.
.
Por que justo no dia que eu estava desacompanhada me acontece uma dessas?
O destino prepara cada cilada.
.
Só foi ouvir "Dance the ghost with me" do refrão que levantei de sopetão e
puxei-a pelos braços fortemente.
Sussurrei "Dance a morte comigo?", ela sorriu.
Me sentia melhor. A música perfeita, o momento perfeito.
Procurou com os lábios meu ouvido, para sussurrar algo...
Mas por um deslize encontrou os meus.
.
Cantamos ferozmente olhando-se nos olhos, quase que gritando, energicamente.
.
Jogou-me no sofá e se jogou em seguida, lado a lado,
totalmente relaxadas de pernas abertas, meias desfiadas,
coturnos pisoteados, maquiagem escorrida.
Só ouviamos de relance comentários sujos de alguns caras.
.
Um se atreveu e soquei-o! A garota caíra deitada de lado no sofá,
antes se apoiava em mim.
Voltei, deitei sua cabeleira negra em meu colo e adormeci também.
.
Acordei caída sobre seu corpo, sentindo ela se movendo,
na tentativa de se levantar. Busquei refrigerante.
Na fila me aparece um cover bem feito de M.M,
olhou para mim...
Retribuí. Me beijou com fervura, tentou avançar... avançou,
mas na fila não pode-se fazer muito. Nem queria.
.
Voltei e a garota estava beijando o cabeludo que me beijou no início,
o que empurrei.
Me sentei um pouco longe e abri as duas latas,
o cara estava bem "animado".
Bebia uma lata e a outra... as duas pela metade.
Olhava. Esperava.
.
Começou a levantar sua saia, a blusa já estava quase toda.
Passava-lhe a mão comose fosse arrancar-lhe a carne.
.
E a garota ainda sonolenta, aérea.
Levantei, fui em direção reta, bebi o resto de uma lata e deixei a outra no chão.
Comecei a alisar os cabelos do cara, que nem me notou. Puxei.
Ele olhou para trás
e pegou-me pela cintura, me puxando para junto deles.
.
A garota me viu, afastou-se dos beijos e sorriu um sorriso mole.
Ele beijava seu pescoço e descia a mão por minha cintura.
Ao redor olhavam com reprovação,
outros estavam se deleitando.
.
Então puxei os cabelos do cara com força,
forçando-o a parar com as carícias.
A garota empurrou-o e puxou-me para si.
Não beijamos. Apenas levantei-me e lhe
ofereci o resto do refrigerente. Ela bebeu.
.
Enquanto isso o cara tentava algo comigo, sem sucesso.
Puxei a garota e voltamos para a pista.
Dançamos mais, estava quente, abafado. Não ficamos muito tempo.
Só o suficiente para esquentar mais... e mais...
.
Outra música! Boa! Mas nem queríamos ouvir, me puxou para um puff mais escondido
e alí ficamos. Ora cantando, ora falando, enfim...
.
O lugar foi esvaziando. Saímos. Andamos vagamente, já era dia.
Tomamos café da manhã numa padaria e sentamos na calçada.
Conversamos, trocamos contatos e finalmente sabia seu nome.
.
Quero te ver de novo, me disse.
Também queria muito vê-la outra vez.
Sentamos em uma escada perto do metrô e nos despedimos.
Mas ainda fomos juntas de metrô, nos separamos e...
Eu fiquei com suas luvas. Como haviam parado alí?
.
Pouco depois uma mensagem:
.
"Devolva minhas luvas!
Agora temos que nos ver.
Ah! Não sou lésbica!
Mas quero sair com você de novo!"
.
Respondi:
.
"Será um prazer!
Também não sou, apenas gosto das pessoas!
Não escolho por quem vou me atrair."
.
Noite louca aquela.
E gostaria que tivesse mais dessas.
Não exatamente igual.
Apenas loucas.
.
Responde:
.
"PS: Você é linda!"
.
E você, era exatamente o que eu estava precisando naquele momento.
Linda... e louca.

* Conto adaptado sobre um relato. Em homenagem a uma grande amiga. Como pedido, aqui está.


Bi Manson