UM BLOG DEDICADO AO SURREALISMO DA MINHA MENTE. COM POEMAS, SONHOS E TEXTOS.

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domingo, 19 de dezembro de 2021

Sem açúcar

Ainda sinto a temperatura, porém me parece que estou num abrigo, numa cabana de madeira escura com frestas a entrar a luz e o frio. A tonalidade gélida do horizonte.

Aqui estou protegida sentada em uma poltrona velha de balanço. Envolta em um xale com um perfume de flores e degustando um chá sem açúcar.

Minha nada doce vida, o vento vem me receber. Antes eu queimava viva, meu estômago, minha cabeça e meu corpo inflamavam.

A suave brisa da cabana me trouxe uma esperança de paz e baixou minha temperatura. As árvores dançam lá fora de forma compassada e toda a sincronia da natureza me traz paz.

Enfim posso fechar meus olhos e descansar.

domingo, 17 de novembro de 2019

Coeur Noir


Olhos sérios e testa engiada, a olhar pela janela.
Encarava o nada no horizonte, pensava em sua existência.
A brisa quente e leve soprava em seu rosto.
Um belo rapaz passava na rua e olhou em sua direção.
Incomodada e entediada virou-se para seu próprio ombro.

Ela era fria e incomodava quem quer que cruzasse seu caminho.
A solidão sua mais antiga amante e até mesmo dela a dama se cansou.

"Não quero chuva,
não quero sol,
não quero terra,
não quero mar"

Mas no fundo o que negava era o desejo de amar.
Privava-se do contato humano, fugia de se entregar.
Fechando os olhos mergulhava num sonho, num inconsciente mundo efêmero, fugaz.

Quando acordava, um aperto no peito a tomava. Sempre o mesmo.
Tinha a sensação que a cada nascer e a cada pôr do sol, seu coração diminuía.
E a cada dia, ela tinha vontade de se mexer menos.

Doze horas de sono era pouco. Seu corpo pedia descanso.
Descanso eterno e ininterrupto.

Passaram-se dias...
Seu apartamento trancado, exceto pela janela da sala, cortinas esvoaçantes e quase se partindo.
Sua alma teria partido?

Deitada e inerte, assim fora encontrada, sem vida como sempre fora.
Somente parou de respirar.

Sua família inconsolável quis saber a causa da morte.
Suas coisas estavam intactas, mas a poeira tomava conta.

Próximo a seu quarto, um rastro de cinzas negras. Fuligem.
Sinais em seu rosto de um terrível e seco pranto. Suas feiões eram fechadas.

Abriu-se o peito da jovem. Bisturi cortando seu tecido branco.
A pele sendo dilacerada, banhada por um sangue escuro.

Do lado esquerdo do peito algo muito estranho foi avistado...
O que outrora fora uma carne saudável, deu lugar a algo espantoso.

Seu coração era pequeno e negro, um carvão que fora consumido.
Do tamanho de uma ameixa, padeceu sem amor, sem luz... e sem cor.

sábado, 13 de setembro de 2014

O tempo, o ócio e o vento

  

Dalí de cima, o tempo não passava. Eu via tanto ao meu redor... tantos pedaços. Sentado na pedra mais alta, contra o vento morno. Ali ouvia sussurros, ouvia todos os sussurros do mundo.

Me espreguiçava e meus olhos umedeciam. O sol tentava trocar algumas palavras, o máximo que conseguiu foi me fazer fechar os olhos, numa careta ensolarada.

A falta do que fazer me fazia-me admirar as ondas lá embaixo, como cada curva lembravam aquelas camadas que escondiam as pernas das damas de outrora.

Belas damas! belos trunfos escondidos nas mangas!

Pendi minha cabeça pesada e cheia de problemas sobre meu braço. Eu queria paz, eu tinha, o que me faltava agora? As damas lá embaixo parecem me chamar para brincar entre as camadas de tecido.

Eu não quero é nada, o vento, o ócio, o tempo.

O tempo que pára.
O vento que sopra.
E o ócio que os move vagarosamente.

As aves que passavam em voos rasantes, como tentativa de me despertar. Ah! Já disse, não quero nada! E nem o nada me quer. Ele quer um outro nada, que o faça descansar de sua obrigação de nada afzer.

E o sono... a cada vez que piscava meus olhos me vinha a imagem do meu amigo. Aquele que me deixava sempre a esperar e... Nada.

Minha vida em si é um grande vazio. Um tempo sem vento, o ócio e o lamento.


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Espinhos, pele, sangue



Quando sua última pétala cair, saberá que o mundo todo despetalou-se, e que tudo são espinhos. Somente espinhos, pele e sangue. Ninguém por você, ninguém que te proteja de rasgar-te a seda da pele. Nem ao menos os seres mais próximos de ti.

Os primeiros virão e roçarão no seu rosto e o veludo se partirá com a superfície pontiaguda e vívida. Não peça respeito, havia um somente... e sob as pétalas ele jaz. Violado pelos próprios sentimentos. Pena que não mais respira...

Faça seus próprios espinhos crescerem e crie sua barreira contra essa imundice, contra esses primatas que agem por puro instinto... Instinto esse que te fez pecar, te fez ferir a superfície do corpo de quem te guardava, do único que te despetalaria se assim o permitisse, um que não cravasse seus espinhos profundamente sem sua permissão, somente para lhe causar dor.

A cor pálida em seu rosto... era a mesma de quando o tinha por perto? Ou era ainda uma flor em botão? Prestes a sangrar sua inocência?

Ambos se dilaceraram o tanto quanto puderam, deixaram suas entranhas em pedaços... porém a pele era sempre a mesma cama macia de pétala de rosas. Banhada de súbita paixão e assim sabiam que um era do outro... Até os espinhos saírem de seus cernes... Até saberem que o que vinha de dentro dilacerava. E que a pele continuaria intocada enquanto presentes.

Na ausência de ambos... foram se perdendo e se deixando arranhar, perdendo a maciez juvenil e a cor rubra que possuíam... Hoje teu rubro é de teu casto, teu casto gasto de espinhos apinhados que se roçam a outros...

Nunca mais voltará a ter a pele de pêssego recém colhido, o aroma das flores da primavera e nem mesmo as cores vivas das asas dos beija-flores. És somente o escárnio de teu próprio sentimento. O sangue pisado e batido, o odor podre de ter sido corrompido... primata... querendo resistir aos instintos.

Apenas a almejar as pétalas virgens do corpo que descansa sob elas... o respeito que impedia os espinhos de crescerem e de romper a fina tez... a alma destruída de recipiente algum precisa, de respeito algum e de celibato algum... viva o corpo primata que padece sob o poder da alma. Viva o corpo que mata ao prazer súbito da calma.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Sem sentido

Eu não consigo te dizer, se você não pode me ouvir. Se nossos corpos estão tão distantes e nossas mentes tão desligadas. Eu ainda sinto a sintonia... e não sei se você ouve a música pelo menos. Sim, ela deve tocar mais baixa mas ainda toca... eu ouço cada vez que fecho meus olhos.

Eu não consigo sorrir, se você não pode me ver. Seus olhos estão em outro horizonte e eu ainda lembro das cores cítricas dos nossos sonhos. Sinto a claridade indo embora mas aquela luz ainda brilha ao fundo. Não sei se você a vê, deve estar se extinguindo, mas ainda pode ver um ponto luminoso.

Eu não consigo exalar meu perfume, se tão longe está para senti-lo. Como se eu o mandasse através da brisa suave para que penetre pela sua ajnela e entre em suas narinas. Eu já não me lembro tão bem de seu cheiro, mas posso fechar os olhos e me concentrar. Abra a janela e respire fundo, ele vai chegar até você, quase que imperceptível, mas vai.

Eu não consigo mais saborear, se seus lábios se foram para outro canto. Se seu sabor saiu totalmente de minha boca, se não sinto mais o gosto de sua pele. Mas... movimento minha língua e lembro, de quando seus beijos eram o que me fazia querer ir além, de suas mordidas carinhosas e do sangue que eu te tirava num súbito prazer. Me desculpe, mas lembro do gosto do seu sangue, lembro do gosto da sua saliva e lembro de todos os gostos que você tinha. Aperte os lábios e sinta, você também se lembra, não por muito tempo.

Eu não consigo mais tocá-lo, se seu corpo vaga por algum lugar da cidade. Se sua pele macia está a sentir o frio da noite ou o calor do dia. Se suas mãos já não repousam sob as minhas. Se bem me lembro... ainda guardo no ventre o calor do teu toque, ainda guardo na pele as marcas todas, os arranhões apaixonados e todas as demonstrações de prazer. Tem coisas que me lembro menos, mas posso reconstituir seu corpo em detalhes e sei... você cerra as pálpebras antes de dormir e faz o mesmo.

Eu não posso mais senti-lo, se nossas almas já andavam separadas. Se dos corpos já não restava nada. E se da dor do partir já me calava. Aperto meu edredon e fecho os olhos como se fosse aparcer como num passe de mágica. Penso tão forte, como se assim fosse te contatar. Viajo tão longe, como se pudesse entrar no seu sonho. Choro tão singelamente, como se estivessem escorrendo de meus olhos as suas lágrimas. E vibro, na esperança que sinta um tremor, um calafrio... algo que te leve minha voz, meu sorriso, meu perfume, meu sabor, meu toque, minhas lágrimas e por fim minha alma... para dentro de sua mente.

Para que eu possa satisfazer todos os meus sentidos ao ver-te entrando em contato comigo. Ao ver seu sorriso prazeiroso de satisfação. Ao saber que nossas almas sorriram uma vez mais antes de suas mortes.

domingo, 16 de outubro de 2011

Almíscar



Alegorias de cores nobres passam por meus sonhos. Imagens pobres e tórridas. Tudo em um único segundo, seguido pelo meu próprio estrondo. E desperto e sua face medonha está a me assombrar. Logo os dois lados de meu corpo se congelam e me recolho na posição que mais me conforta. Até em meus sonhos fujo do convívio, fujo de seu convite libertino.

É com dificuldade que separo minhas pálpebras. Somente para verificar se as entidades se foram. Seu rosto não mais está, mas a ameaça de sua presença é iminente. Dirijo-me com cautela até o espelho antigo e oxidado. Meu corpo se tornou frágil e pálido nesse sonho em sépia.

Meu único desejo é o tédio reconfortante. Como o abraço daquele amante, aquele que nunca foi verdadadeiramente o seu. A cada tilintar de idéias meus olhos se perdem mais e no espelho já não mora.

E eu não tenho mais amigos, nem parentes, nem ente algum. Meus amigos não são mais do que extensões de meus próprios devaneios. Assim como o amante que não veio.

Tudo que se julga vivo, morto estava para meu alívio.



[Almíscar] me lembra dor, sofrimento. Abaixo, como é produzido:

Almíscar - Não Use

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Óculos



Meus óculos permitem vê-lo.
São mágicos, mas necessitam reparo.
Ultimamente opacos. E quando os tiro, o breu se faz.

Não importa para onde tento olhar.
Sempre tem algo incômodo, querendo me cegar.

Não quero ter que tirá-los e ficar no breu.
E as luzes não se deixam alcançar.
Fogem de minha retina.

Antes enxergava perfeitamente.
Sem óculos mágicos, sem opacidade.
Contemplava a bela figura, o dia todo.

Agora não prestam mais.
Terei que me desfazer...
Pena, era tão bonito!

Eu caminho e nada vejo. Nada me interessa.
Mas alguém veio em minha direção.
Parou em frente a mim.
E tudo tomou um novo rumo.

Eu andava cabisbaixa e a luz refletida não me permitia ver.
Esse alguém me ergueu o queixo. E me limpou as lentes.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Velando uma vela


De óculos escuros.
'Encarando' uma vela a queimar.
Está em sua juventude e logo estará morta.

Sua chama palpita, como se levasse um susto.
Ou estaria apaixonada?
Luz fraca, luz forte.
Oscila.

Chora a cada tremor de sua alma, escorre o gozo de seu pranto de cera.
Um sopro, um suspiro e tremula com medo de seu fogo azul-laranja se extinguir.

Dá vida às cores ao seu redor.
Vida pálida e amarelada.
A certa distância os objetos jazem na penumbra.

Minha mão, semi iluminada, num desenho renascentista.

Corpo frágil e fácil de penetrar.
Pavio incandescente e rijo.

Parece que me ouve e compreende...
Mas sua luz não mais necessária é tirada num sopro.

E a fumaça fúnebre leva seu calor para uma viagem e passa a não mais existir.

Cera quente se resfriando nos dedos.
Óculos sem imagem a refletir.

Vela extinta.
Escuridão feita.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Enfim se foi

Sim, eu te guardei em um sorriso secreto,para que assim pudesse curar minha loucura.
Andar sem rumo não resolve mais nada, a dor volta e a confusão aumenta.
Te guardarei mais fundo ainda se for possível, para que não mais apareça em meus pensamentos.
E que um vulto negro tome seu lugar para que possa ter meus devaneios noturnos e adormecer no calor de minha própria alma.

Pode parecer tudo tão vago e sem sentido...
Sim, é assim que está se tornando essa minha vida, pois creio que esvaziando minha essência poderei purificar minha existência.

Quem sabe você também não exista? Não passa de um dos frutos de minha imaginação.
Tal perfeição imperfeita que só pode existir onde nada existe, na ficção de minha mente.
Somente eu sei o quão estranho é... não saber se sabe... não sentir se sente... não entender se entende.

A nuvem negra retorna trazendo toneladas de dúvidas para inundar meu jardim de certezas.
E tudo parece ficar tão pesado e tão calmo, como em um enterro num dia chuvoso. E mesmo assim os anjos insistem em aparecer com sua luz intensa e flutuante.

Parece que nunca acaba... quanto mais saem as águas turvas de meu ser, mais inunda e mais me afogo.


Bi Manson

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Desabafo


Quem sabe, no dia em que estivermos todos mortos, daremos valor ao nosso grande planeta... que em breve se tornará inóspito...

Todos os dias rezo para que tudo acabe...
Que a humanidade padeça sobre as forças da natureza... e que assim a Terra possa ser repovoada por um povo menos mesquinho e intolerante...

Mate seu próximo para poder subir no topo do mundo e mostrar suas riquezas, mesmo que sejam indignas e banhadas por um sangue puro de um pobre mortal... de uma criança inocente...de uma animal indefeso...

Mate! Isso alimenta seu ego demoníaco... mate por prazer e por pura vaidade!
Arranque a pele de uma animal e a coloque em sua sala, pendure uma carniça de raposa em seu pescoço, coma carne podre...
Mate a si mesmo... e destrua seu lar... afinal...

Você é um estúpido humano...

Por Bi Manson