UM BLOG DEDICADO AO SURREALISMO DA MINHA MENTE. COM POEMAS, SONHOS E TEXTOS.

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quarta-feira, 5 de março de 2025

Olhos de Desesperança






















Paredes vazias
Vidas frias
Vias lotadas
O caos imperava
 
Mas ali dentro
Nada havia
Um vazio cintilante
Um último raio brilhante
 
O sol de despedia
A luz fraca em seu rosto
Toda a desesperança em seus ombros
Caídos como um anjo errante
 
Sem vontade de ir adiante
Sem coragem de estagnar
 
Era ele em seu lugar
O silêncio a engasgar
Dias de luta todos iguais
Um dia a menos
Um outro a mais
 
O futuro em uma mancha turva
Uma dor repentina
Profunda e aguda
 
Assistia sua vida passando
Como as pesadas gotas de chuva
Sua existência, um precipício
Como uma estrada acabada na curva
 
Fecha os olhos
Abre os olhos
Mesma cena
Nada muda                     
 
Um espelho
Uma penumbra
Olhar murcho
Se afunda
 
Olhou para dentro
E o vazio o consumiu
Virou do avesso
E não mais existiu
 
Uma vez era frio
Agora não é nada
Foi sua última parada
O fim da estrada


***Esse é meu primeiro poema que usei inteligência artificial para gerar a o roteiro e a imagem guia da narrativa que escolhi.
 

sexta-feira, 15 de julho de 2022

Interna(mente)

Tento não preocupar
Tento me ocupar
Mas tudo gira
Rápido e devagar

Um sorriso que esconde
Uma gargalhada que camufla

O corpo incomoda
O peito infla
O ar parece estar preso
Numa prisão de carne e osso

Tento não implodir
Tento me impedir
É algum crime
Não se manter firme?

Sorria e aguente
Eles dizem... 
"Não é tão urgente"

Se eu te contar
Qual desculpa vai dar?
Vai ficar tudo bem
"Siga em frente meu bem"

Em frente
Enfrente
Imediatamente
Não lamente

Eles não gostariam
Não mesmo
De estar na minha mente
Por um segundo ou menos

A poesia me acalma
Me acende a alma

Eu só queria falar
Mas não quero preocupar
Prefiro me ocupar
Poupar

E então não é o fim
E só mais um dia assim
Sem que eu desista de mim

domingo, 5 de dezembro de 2021

Alma sem flores

Você é apenas um borrão
Uma pincelada inacabada
Um sonho distante
Cheio de ilusão

Flores vivas em suas mãos
Roubadas de um jardim qualquer
Sentimentos tão mortos quanto seu olhar
Nada em ti soa real

Suas mãos são um convite
Para um precipício

As raízes
Nem sequer as cortou

E o que sabe sobre raízes?
Sentimentos que nunca provou

Eu fingi para o nosso nós florescer
Eu fingi para tentar caber
Eu fingi para ver um sorriso

Eu plantei naquele jardim morto
As sementes mais preciosas
Elas nasceram belas sem alma
Enquanto eu olhava para os céus
Você envenenou todas as rosas

Quando eu me senti inundada por ti?
A única invasão era seu toque insosso
Seu beijo frio e calado
Seu toque esquivo

Olhava-me nos olhos
Como quem quisesse dominar
Eu me fiz fantoche
Para que pudesse se alegrar

Quando foi que eu sonhei um sonho
Que real nunca poderia se tornar?
Quando eu me deixei ser seu jardim?
Onde plantou suas sementes podres

Eu me deixei morrer
Para reviver como sua boneca
Eu te amava a ponto
De esquecer que eu estava viva

Você entrou na minha vida como o sol
Com sua presença desmedida
Inundou minha alma com calor
Inundou minha essência com amor

Armadilha
Numa trilha
Numa via
Sem saída


* Baseado na música "Fake Love", BTS.



domingo, 7 de junho de 2015

Do efêmero



Amor vão o meu
Que fora eu pra ti
Senão seu recipiente de sêmen e riso
Quem me dará vida num dia frio

Dei-te momentos
Dei-te calor
Dei-te prazer
Deite, meu amor

Sou pele pálida
Fria e pegajosa
Sem ti me acabo
Sem ti eu vago
Senti amargo

Abranda-me esta carência
Acenda o fogo de meus olhos
Sem decência
Sem presença

Foste morar noutro canto
Fora pra longe de meu pranto
Escarrou em minha alma
Levaste toda a calma

Saberá que um dia te amei?
Que de minhas terras te fiz rei
Que tu eras meu único
Que mesmo livre...
A ti me ancorei?

Pobre de alma estúpida sou
Podre por dentro
Teu mar branco me inundou
Tua alma de certo me adentrou

Pode tal criatura viver em paz
Se desde que ancoraste em meu cais
De toda a treva me libertou
E ao partir toda à ela me entregou

Visto luto por teu nunca amor
Visto luto por meu dissabor
Visto luto pelo não destino
Visto e luto contra o desatino

Sabendo que flor jovem eu era
Chamou-me pra travar esta guerra
Do sentir e não sentir
Do amar e não poder
Do conquistar e deixar morrer

Para que pudesse derramar em mim
Seus desejos em minha boca carmim
Os prazeres em minhas curvas tatuou
Minha alma com a tua tateou

Aqui estou para jazer em mim
O que um dia foi um vasto jardim
Cada gesto sincero teu
Fez-me provar o céu
De cada olhar brando
Do inferno trouxeste o fel

De toda minha lei
De todo meu encanto
De toda minha alegria
Sobrou-me este triste cântico

domingo, 25 de agosto de 2013

Popped Cherry


Cereja vermelha, apodrecida, entorpecida
Natureza morta, violada, infectada
Céu laranja, enturvecido, ardente
Alma fria, trépida, gélida, ...

Mãos trêmulas, magras, boca amarga
Cigarro, incenso, incêndio, aceno
Gesto ingênuo, obsceno, ligeiro
Homem alto, polido, não vestido

Meias altas, palavras baixas, sussurro
Esmurro, esporro, escuro, escasso
Correndo, escorregando, ofegando
Janelas expostas, vidas opostas

Desgosto, mal gosto, agouro, socorro
Água negra, derramada, poluída, sem vida
Jaz terra escura em minha boca, serpente
Cereja molhada pelo orvalho de outrora

Enterrada, demente, semente... no ventre.

domingo, 30 de setembro de 2012

Awakening


Posso despertar agora?
Tem certeza que posso abrir meus olhos?
Posso voltar a sentir o ar na garganta?
Tem certeza que não vai machucar?

Posso suspirar?
Me promete que não sufocarei?
Posso sentir o aroma?
Posso tocar as flores?

Posso me mexer?
Sentir o fluxo do sangue em minhas veias?
Certeza...
Não vou me arrepender de empurrar esta tampa?

Pode segurar minha mão?
Já estou quente?
Posso sentir o sol?
Posso te olhar nos olhos?

Tem certeza que não vai doer?
Quando eu pisar na grama...
Quando eu sentir a brisa...
Quanto me sentir viva...

Certeza que daqui pra frente...
Nunca mais irá doer?

domingo, 27 de novembro de 2011

A virgem de Nero

Queimo vossa face rubra,
Antes que teu corpo cubra.
Antes que a paixão perdura,
Encontro em teu seio a cura,
A cura para minha loucura.
Ah se foste assim perfeito,
Teu corpo nu em meu leito.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Nero e Eu II



Perdemos o sentido?
Não te dou mais ouvido?
O que há, Nero querido?
Eu que tenho te escondido?
Ou eu que ando deprimido?
A vida confusa e os sentidos.

Não quero calar-te
Não quero afastar-te
De tudo fizeste parte

Nero, amor!
Como se não bastasse o calor
Não bastasse o clamor
Nero, sem ti eu não sou

Uma parte que me faz sonhar
Outra que me faz amar
Todas a me entregar
Estou aqui a desabafar

Dá-me ouvido
Meu querido
Iludido
Aturdido

E assim vamos vivendo
A sua loucura te conduzindo
Minha neurose nos consumindo
Assim vamos nos munindo

Unidos contra o mundo
Contra o meu ódio profundo
No âmago destruído
Num amargurante gemido

Nero, dá me ouvidos?

Eu toco sua lira profana
Eu queimo sua cidade insana
Abraçados ao caos de nossas almas
Aqui Nero, me acalma
Me salva e me toma

E o prazer assim retorna
Na concha infernal que nos deu a forma

domingo, 21 de agosto de 2011

Amarras

Estou segura
Dentro do olho do furacão
Longe das imagens aterradoras
Eu não consigo me ver nelas

Minhas linhas de pensamento
Se materializam
Enforcam-me

Um grão de areia
Que é expulso do furacão
Lançado a toda velocidade
Se juntará com outros
E se torna novamente areia

Olhos perdidos
Luz e ruído
Trancafiada
Numa caixa vermelha

Fui presa pelas minhas paixões
Perco o sentido e o desejo
Me chicoteiam até que a carne se solte
Mascarados e sorridentes
Todos eles me odeiam

Sente-se o drama de suas palavras
Fui apenas a cortesã rebelde
Que se acanha e não se abre
Que cospe nas mãos que vieram lhe despetalar
Mas sorri num prazer secreto

Garotas virgens na mira
Aquelas por quem esperei
Canto tântrico de liberdade

A caixa se abrira
A luz me devolve a visão
E as paixões se dissolveram
Resta um, o que tem a espada nas mãos
Irá me decepar
Ainda assim sorrio em agradecimento

No final ele morre
Pois se eu me vou
Deixa de existir em mim

Apenas cinzas de um incenso
Seu odor que se espalha
E morre em seguida

Não passou de ferida
Que se cura e se mata
E não mais desata
Pois já cicatrizou

Nunca existiu agora
E no passado não mora
O vácuo, o nada
Que ainda assim incomoda

Me desamarra, me solta!

terça-feira, 28 de junho de 2011

Fantasmas




Seus fantasmas insistem em me perseguir
Nos devaneios, nos sonhos
Sempre a sorrir

Leve-me para o lugar onde eles ainda estavam vivos
Para as memórias frescas e vistosas
Arranque-me um sorriso

Eu ainda lembro de seus olhos me evitando
Lembro deles, tímidos e perdidos
Assim como você me parecia

Já não existe nada
Já não faz sentido algum
Mas aqui em algum lugar fica
E sempre teima em ir

Te despachei mil vezes
Por que me atrapalha tanto?
vá por aí viver sua vida
Solitária ou não

O fato é, meu querido
Já me deixou a tempos
Meu coração ainda te mantém quente
Em um ninho onde se espalha

Como doença, como vermes
É sujo, é decadente
Me consome

O seu amor me parasita
E abre espaço para outros
E os devora, assim indecoroso

É psicótico!
Um fantasma que nem Freud explica
Nem padre exorciza

Me rende e me prende
Onde estão as algemas que mal as sinto?
Livre dentro de um presídio

Meu suicídio de cada dia
Meu doce amargor de cada noite
Ainda que me deixe experimentá-los
Ainda que me deixe amá-los

Não me livra das correntes de seus atos
Atos mal decifrados
Gestos mal expressados

Banhada numa indecisão
Decido deixar-te afundar
Afunda-se em mim
Morra aqui dentro

Mas te peço, não me perturbe!
Não me acorde desses sonhos!
Não me faça visitas noturnas!
Liberte meus fantasmas!
Liberte seus carmas!

Abata-os sobre qualquer cabeça vazia
Sobre qualquer peito mal-amado
Deixe seu retrato espalhado
Mas me tire a visão

Esteja em qualquer lugar
Mas não me faça te notar
Não estarei mais aqui para ti
Não estarei mais querido
Te guardei num porão

Grite, esperneie, mas não
Não volte a me procurar
Não em meus sonhos
Sumir eu proponho

Assumidos meus medos
Assumidos meus desejos
Somente um beijo
Somente o vejo

E assim ficou
Intocado porém rasgado
Assim avassalador
Invadido sem invasor

Mas as chamas que aqui ardem
As que alguém colocou
Te queimarão
Deixará de existir querido

Há de se extinguir
Mesmo que queime a mim
Uma parte de mim
Serei feliz imperfeita

Fantasmas dilacerados
Anjos foram libertados
Queimados em suas conchas
E suas cinzas já não me fazem sentido

Desapareça querido!
Apenas mais um indivíduo
Mas eu duvido...
Ah, eu duvido...

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Frio

Está frio e tudo me congela
Desde a mais externa camada de roupa até meu coração
Rezo nessa noite a mesma oração

Peço perdão por gelar certos sentimentos
Por ser ingrata e indelicada em muitos momentos

E o vento que me corta mesmo estando a sós
Trancada num quarto sem portas, janelas ou sol

E o poeta me recita algum poema inaudível
Na ausência da minha mente e de um sonho iniludível

Mandei todos os anjos embora
Para o deserto escaldante, lá fora

Somente nessa caixa tudo se torna cinza
E tantos graus abaixo, o corpo desliza

É a neve aqui
São meus carmas
Caindo sobre esta pele arroxeada
Com flocos de neve adornada

Há um fogo em algum lugar
Houve um fogo a se apagar

Não soube mantê-lo
Não soube acendê-lo

Outro há de vir em seu lugar
Outro há de me tirar da caixa cinzenta

É o gélido outono a me atormentar
E o inverno que logo me visitará

Toda a névoa que esconde meu olhar
Ainda o desnuda e o faz se revelar

Carrego as lágrimas úmidas a congelar
Carrego o coração em forma de gelo a quebrar

Todo o sentido que pôde fazer
E toda a história que se fez perder

De nada vale
Nenhum raio de luz aqui cabe

Nenhum rosto além do poeta que ainda fala
Ainda procura suas palavras em minha voz calada
E meu corpo camuflado de pele alva

E houve o tempo em que andava pelas esquinas
A procura de algum corpo quente
De um amante de repente
E acabava caindo em armadilhas

Todos os ventos do mundo
Toda essa camada gélida
Toda essa canção sem um fundo

Tudo o que me abalou
Hoje recai num drama profundo

Era o meu e o seu grito
Era tudo o que não foi dito

O teto se abrindo era meu espírito
E aqueles à espreita eram os anjos

O calor entrando e tudo se aquece
Como meus sentidos te pediram numa prece
E o deserto penetra através das frestas
Do cubo, derretendo-se as arestas

E o único que não pôde me aquecer
Que me colocou na cinza escuridão branca
Que desnorteou meu olhar
Me fez perder o foco
Me fez te desmerecer

A gratidão é por tudo
Tudo o que não queimou
Pelo que está intocado
Pelo precipício que ficou

Amores e calores a cada esquina encontro
Ingrata fui por não esperar pelo tempo
Pois anseio por cada fagulha que possa me atingir
Pois já disse, não sei me dirigir

Hoje tudo está parado
Para ti ficou inacabado
Para mim mais do que explicado
E nada passou de atos equivocados

Hoje lembro com desgosto
Que um fim não teria posto
Se tivesse me aquecido
Se tivesse me mantido

Eu corri e eu ainda corro
Em teus calores nada encontro
Nada que vá me queimar
Nada que sua geleira possa atenuar

Enfim os anjos se foram
E quantos mais estão por vir?
E quantos infernos me apetecem?
E quantas vezes eu vou rir?

O poeta me olhou pela ultima vez
E agora ouço seu poema
Seu nome, Nero, diz com prazer
Me prende em si e me queima

Frio está em algum lugar
Algum gelo que não hesitou em ficar

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Leviana obsessão

Lancei-lhe meu último olhar
E um primeiro feitiço
Não me importava suas vontades
O que tinha que ser feito
Tinha que ser feito

Não importava as consequências
Somente era para ser meu
Aquele foi seu último sorriso

Penúltimo
O último será no dia escolhido
Quando apertar sua face
Até deformá-la
Formando um leve sorriso

Mesmo que horrorizado

Aquele anjo pôde descansar
Sua missão acabou
Tenha suas asas rasgadas
E se torne um humano errante

As vozes me dizem
Roo minha própria carne
Olho em teus olhos aturdidos
Ouço-as emergir

Meu Deus! Como te perdi de vista?
Somente olhei para o lado
E nem estava mais a ver a vitrine

Como foi-se e não vi?
Como ela te encantou?

Te odeio a ponto de amá-lo
De se tornar o ponto inicial
E o final de minha vida

Eu te amo
E não importa o que faça
Ou o que diga
Assim será em minhas mãos

Seu sangue assim transcorrerá
Meu amor de todas as tardes
Meu único feitiço noturno
Eu me despetalo a cada toque seu

Ajoelhe-se
E diga que me ama
E que quer se acabar
Pelas mãos de sua amada

DIGA!
DIGA!
ORDENO!

Um empurrão
E meus punhos estão em sua carne
Puxo-os, ahhh estou me derretendo
E meu amor é puro

Geme e seus cabelos colam em sua face
Sente dor? Ainda vive?
Não importa o que diga agora
Está no fim e eu fui sua última

Não importa o que tente
Eu te amo e não poderá mudar isso
Não poderá voltar todos os momentos
Não poderá consertá-los

Um feitiço mau feito
Não te trouxe a mim
Eu tratei de cumprir o destino
O carma meu bem!

Seu coração agora está em minhas mãos
E sangra desenfreadamente.
Você disse que nunca ia ser meu
Agora, o que se arrisca a dizer?


*Baseado na música de meu queridíssimo Marilyn Manson

domingo, 13 de março de 2011

Eu

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber por quê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!
Florbela Espanca



Poetisa simbolista, Florbela Espanca nasceu em 8 de dezembro de 1894. Poetisa portuguesa, vida plena e tumultuosa, inquieta e cheia de sofrimentos íntimos que soube transformar em poesia da mais alta qualidade, carregada de erotização , feminilidade e panteísmo.

Escreveu poesia, contos, um diário e epístolas; traduziu vários romances e colaborou ao longo da sua vida em revistas e jornais de diversa índole, Florbela Espanca antes de tudo é poetisa.É à sua poesia, quase sempre em forma de, que ela deve a fama e o reconhecimento. A temática abordada é principalmente amorosa. O que preocupa mais a autora é o amor e os ingredientes que romanticamente lhe são inerentes: solidão, tristeza, saudade, sedução, desejo e morte.

Sofreu as consequências de um aborto involuntário, que lhe teria infectado os ovários e os pulmões. Repousou em Quelfes (Olhão), onde apresentou os primeiros sinais sérios de neurose.

Tentou o suicídio por duas vezes mais em Outubro e Novembro de 1930, na véspera da publicação da sua obra-prima, Charneca em Flor. Após o diagnóstico de um edema pulmonar, a poetisa perdeu o resto da vontade de viver. Não resistiu à terceira tentativa do suicídio. Faleceu em Matosinhos, no dia do seu 36º aniversário, a 8 de Dezembro de 1930. A causa da morte foi a sobredose de barbitúricos.
A poetisa teria deixado uma carta confidencial com as suas últimas disposições, entre elas, o pedido de colocar no seu caixão os restos do avião pilotado por Apeles (seu irmão falecido) na hora do acidente. O corpo dela jaz, desde 17 de Maio de 1964, no cemitério de Vila Viçosa, a sua terra natal.
Leia-se a quadra desse "admirável soneto que é o seu voo quebrado e que principia assim":
Não tenhas medo, não! Tranquilamente,
Como adormece a noite pelo outono,
Fecha os olhos, simples, docemente,
Como à tarde uma pomba que tem sono...

Mais em: pt.wikipedia.org/wiki/Florbela_Espanca
Me identifiquei logo que li alguns de seus poemas, numa coletânea de poemas simbolistas: O Simbolismo de A. Soares Amora. Sobre poetas simbolistas portugueses, outro que me chamou atenção foi Teixeira de Pascoais.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Caderno de notas


Abraço meu caderno e durmo
É ele que guarda meus segredos
Sonho com tudo aquilo que lhe conto

Escrevo frenéticamente
Fecho-o
Abraço-o como a um amante,
depois da noite de amor

Espero que nunca venha a me abandonar
Ou me trocar
Quem sabe absorveu meus pensamentos
E quem sabe passou a ter vontade própria
E se tornou um espelho
Prestes a me dominar

Jamais o quebraria
Pois sem ti não manifesto uma exclamação sequer

Não me revele
Pois eu me revelarei aos poucos
Sou eu quem abro-te e vou te despetalando
Fazendo-te público e menos meu
E mais de todos
Ainda assim sou você e você, eu

Me transcrevo para ti
Te transcrevo para o mundo
De forma a que somos algo único
A ser dividido e desmistificado

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Chamam-no anjo

Botão de rosa branca
Assim como poderia lhe descrever
Luz branca que adentrava pela janela

Estava perdido
Estava a me chamar
Ouvia vagamente

Seus risos
Não entendia-os
Estenda-me suas mãos
Não te vejo

Era somente uma luz a me olhar
Gritos incessantes,
Atravessavam meus tímpanos

Em outra dimensão...
Estava morto, querido

Vinde a mim
Cuidarei de sua alma
Te rezo mil preces
Te jogo um encanto

Mil anjos caíram contigo
Mas fora o escolhido
Cortaram-lhe as asas
Roubaram-lhe a alma

Pregaram-te na cruz
E eu não posso mais sentir
Uma parte de mim se foi

Os matarei!
E guardarei a besta em mim
Sou o pesadelo
Uma sucubus que os atraiu

Venha meu anjo
Deixe-me curá-lo
Segurar tuas mãos
Atar os nós de suas memórias

Anda esquecendo-se
De quem fora um dia
Um pobre mortal
Ainda sou assim como me fizeste

Me salva que te salvo das feras
E das descrenças
Das mentiras
Dos exageros

Eu sei que pede socorro
Calado e sombrio
Levante-se e volte
Venha me iluminar

És meu anjo
Para todo o sempre
E sou a tua fera
A ser domada

Caminhemos juntos
Sangue vermelho
Mãos entrelaçadas
Olhos risonhos
Sozinhos e salvos
Para o fim da estrada


*Lembrou-me depois essa música:



[Eu Perdoei Jesus] [I have forgiven Jesus]

Eu fui um bom garoto
Eu não te faria nenhum dano
Eu fui um garoto legal
Com uma rota legal de entrega de jornais
Perdoe-me qualquer dor
Que eu possa ter te trazido
Com ajuda de Deus, eu sei
Sempre estarei perto de você

Mas Jesus me magoou
Quando me abandonou, mas
Eu perdoei Jesus
Por todo o desejo
Que ele colocou em mim
Quando não há nada que eu possa fazer
Com esse desejo

Eu fui um bom garoto
Através do granizo e da neve
Eu iria apenas para te ultrajar
Eu carreguei meu coração em minhas mãos
Você compreende?
Você compreende?

Mas Jesus me magoou
Quando me abandonou, mas
Eu perdoei Jesus
Por todo o amor
Que ele colocou em mim
Quando não há ninguém para quem eu possa me voltar
Com este amor

Segunda - humilhação
Terça - sufocamento
Quarta - condescendência
Quinta - é patético
Lá pela sexta - a vida me matou
Lá pela sexta - a vida me matou
(Oh, lindo,
Oh, lindo)

Por que você me deu tanto desejo?
Quando não tenho aonde ir
Para descarregar este desejo?
E por que você me deu tanto amor
Num mundo sem amor
Quando não há ninguém para quem eu possa voltar
Para liberar todo esse amor?

E por que você me mutila
Com ossos e pele auto-depreciativos?
Jesus, você me odeia?
Por que você me mutila
Com ossos e pele auto-depreciativos?
Você me odeia?
Você me odeia?
Você me odeia?
Você me odeia?
Você me odeia?

domingo, 21 de novembro de 2010

Nero [e eu]


Nero me queima
Com a loucura nos olhos
Tocando sua lira
E com um sorriso incandescente

Nero me acendeu
E me pôs a dançar
Com uma das mãos me girava
Ainda a tocar

Incitava o caos
O fogo se alastrando
Senhoras pedindo
'Salvem a moça'

Me deixem queimar
Queimo em rodopios
Nero, querido
Toque outra nota

Está louca
Está morrendo
Dançando loucamente

Trouxe-me uma taça de vinho
'Beba, querida'
E o fogo consumia
E o corpo ardia

Toma-me!
Toca-me!
Queima-me!

Nero está em chamas...
E deseja queimar tudo ao seu redor

E o fogo consome
O monumento
A cidade
O homem

Nero dos olhos vermelhos
Do corpo queimado
Da lira em cinzas

Poeira nos ventos
Era Nero e eu
Loucos amantes do fogo

Tudo ruíra
Como nossa mente no chumbo
Como o vinho se espalhando
No silêncio taciturno

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Lembra-te Dolores?


A manivela que girava a máquina
Girava todas as engrenagens
Girava ao meu redor
Projetava sua imagem

Na praia correndo
Acena pra câmera
E mostrava a língua

Garota pura
Que nunca irá me amar
Tira o soutien do biquíni
E corre direto pro mar

Lolita me espere!
Levanto gritando
A câmera vai ao chão
E a fita gravando

Com as tranças a rodar
A meninice desgastada
Era só ela e o mar
Era a praia e a enseada

Ela pulava em mim
E a fazia girar
Tão leve e angelical
Quem a chamaria vulgar?

Onda vai e onda vem
Meus olhos marejam
Preta fica a tela
Mas lá fora as plantas verdejam

Pois lá está
Lolita a pular
É somente uma lembrança
A levada e inquieta criança

Lolita onde estará?
E eu que nem mais vivo
Fiz a vida parar

Pare a sua, querida
Seja sempre a menina
Minha Lo, minha ninfa

Tenho mulheres
Crescidas, adultas
Mas nada me serve
A dama, a culta

Maldito sou
Um pederasta
Eu queria matá-la
Como nos filmes

Não seria mais abusada
Lo, quanta dor eu sinto
Por pensar, por sentir
Lo, estou doente

Demente...
Mataria...
Lo...
Minha Lo...

Estou morto aqui
Volte e me enterre
Em você, querida
Em sua ferida

Curemos
Um ao outro
Matemos desejos
Vivemos de novo

Aperte o replay
Tudo de novo
E sua boca de cereja
Ela lembrará o caminho

Sozinhos
Sem mundo
Sem tempo
Somente nós
Em nós mesmos

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Tela à mostra


A sua arte me cega
Sou obrigada a seguir tocando
Procurando na escuridão

Qual será a beleza revelada?
Ou não passará de uma maçã podre?
Ainda assim, bela

Sensível, aterradora
Comum, conceitual

Me diga qual o seu preceito
E eu te digo, é tudo igual

A sua arte me cega
Ela segue a mesma regra
Me acolhe e me entrega

A sua arte me estraga!

Me rasga, me espalha
É o poço do ócio
É pura migalha

Puramente híbrida
Libidinosamente frígida

Se esparrama e se recolhe
Seu desenho me escolhe
Me risca por inteiro
Sem borracha e sem permeio

É por isso que anseio
Sua arte é devaneio!

Ela vem me consumir
Na escuridão dentro de ti
Passa por mim num feixo de luz

És tu, seu cão andaluz!

Ainda vai me matar,
Essa coisa de pintar no escuro
De virar meu mundo
E me fazer teu escudo

A sua arte me denigre
Nua aos seus pés
Como se fosse somente sua
E ousa chamar-me santa

Ela ainda me romperá
E te jogarei ao mar
Junto com suas molduras
E suas tintas desvanecidas

Destruirei ainda tuas obras
Telas, cavaletes e pincéis

Atearei fogo em seu ateliê
Sua arte me enoja
Me fascina e me encoraja
Me confunde, me apavora

Sua arte é vulgar!
Desejo tonto e fugaz
Que se levante e se vá
Cansado, de tanto me amar

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Christine

Sou feita de exagero e drama
Ruim de fogão e boa de cama
Aquela que ama e desama

O nome por quem ele chama
Cheia de planos e tramas
Coberta de flores
Coberta de lama

À noite sem rumo e sem grana
Pomposa feito uma dama
Quem vê até se estranha

Me deito na grama
Me deito com ele
E ele me ama

A namorada nem sonha
Em sua casa, em sua cama
Enquanto ele se banha
A noite passa e não me acanha

Cheio de manias, cheio de manha
Me faz um drinque
Me beija e me ganha

"Christine! Christine!
Acorda!
Se manda!"

Suja estou
De luxúria, de lama
Como uma top model
Auge da vida, auge da fama

E assim chega de banda
A namorada, a primeira dama
Ele me olha
E sabe da barganha

Primeiro o dinheiro
"Toma Christine!
Anda, anda!"

E pulo a janela
Corro descalça na grama
Ele me ama! Ele me ama!

Ele me tem
Ele me manda
Ele é quem pede
Ele comanda

É aqui fora a vida sacana
Ora me bate, ora apanha
E aqui sei que não tem manha
Ela me vende ela me compra

Mas aquele é o meu gato
E é em mim que ele gama
Na rua, no beco
Na cozinha ou na cama

Sou Christine, a destemida
Sarcástica e bacana
A pobre garota
Que a todos engana

domingo, 3 de outubro de 2010

Constantino


Alma minha logo eu choro
Sonho contigo e me devoro
Logo surge a me chamar
Clamo a ti no meu ninar
Busco a ti em meus momentos de vazio
Pensando em ti aqueço meu corpo frio
Lembro do teu semblante sóbrio
E que aumenta minha libido
Alimento meu desejo platônico
Ouça a sinfonia de minh'alma
Cantemos juntos nossas lágrimas
Despejemos nossas mágoas
Em um copo de absinto
Deite-se comigo e me mostre teu encanto
Lamentarei quando levantar e não ver teu corpo
Logo eu vivo
Logo eu morro

*Uma homenagem ultra-romântica, encontrei amassado um dia desses, com razão rsrs. Não é do meu feitio escrever coisas tão explíitas (em relação a sentimentos), prefiro a tríade ambigüidade-mistério-confusão.